sábado, 16 de maio de 2009

Batismo





Enrugados. Os dedos estavam enrugados, a pele repuxada, a cabeça era pesada demais ou o pescoço já não tinha forças, não sei. Meu corpo estava ali, flácido, fraco, insensível. Minha consciência quase conseguia ver se a água estava se movendo ou se o vento aumentava sobre meus cabelos empapados no meu rosto. Meu queixo estava quase confortável no meu peito quando minha cabeça se jogou para trás e o vento gelou meu queixo e meu peito. Quis vomitar. Meu pescoço não tinha forças para jogar minha cabeça pra frente. Engasguei. Barulho infernal, que porra é essa? Sirene? Que merda...


Era sexta. Segunda semana da faculdade. A Míriam não tirava os olhos de mim e eu ficava todo idiota porque toda vez que subia o olhar das coxas dela encontrava o dela no meu, minha cara ia no chão, voltava nas coxas, enfim. Um dos veteranos colocou uma lona qualquer na parte de trás de uma D20. Todo mundo embarcou nos carros. Deu pra ouvir alguma coisa sobre Vargem Grande.


Uma das meninas chamou por alto "Míriam" e adivinha quem veio? Ela! Linda demais. Tinha muita gente na sala e ela pegou na minha mão para se escorar e passar entre duas pessoas. Queria abraçar ela do nada ali e mandaram a gente se separar em homens e mulheres. Ah, legal: tirando minha camisa e me pintando. Criatividade não parece ser o forte por aqui. Ela tá me olhando?


Deus, por que eu topei isso? Aparecer pra Míriam? Ela deve estar me achando mais idiota agora e esse imbecil não solta minha cabeça. Tá frio até dentro da cabeça, quanto mais me debato mais me canso. Esse imbecil não me solta! Talvez se eu apontar pro alto... a brincadeira acabou, cara! Que merda! Me solta! Soltou... fraco demais pra me virar de frente. A água pisca azul e vermelho? Tô enjoado. Não acho a borda... alguém me tira daqui!


Simulando uma procissão, esses caras são todos loucos! Acho que eu não deveria beber tanto. Tá todo mundo indo pra D20, o que deve estar rolando ali? Aquele moleque não sai de perto dela, puta que pariu! Vou chegar e puxar um papo assim, como quem não quer nada. Ela tá rindo. Ótimo: eu estufo o peito, vou chegando e tropeço nessa mangueira. Dá pra ser mais idiota? Ela riu?


As cores piscantes da água ficaram mais fortes. A D20 arrancou, bati com as costas, cabeça fora d'água . Graças a Deus, pensei que eu ia morrer ali.


Os carros seguiram por quase uma hora. Cervejas distribuídas e todo mundo rindo. No meio do caminho percebi que ela estava sentada do outro lado e só olhava para fora, pela janela. Arranquei uma folha de caderno e fiz uma flor. Aprendi no centro, num jantar com uma prima, uma menina que vendia rosas ensinou pra gente. Fui o último a aprender. Acho que só eu devo saber fazer isso até hoje. Fiz a rosa passar pelos joelhos do tal Victor, sentado entre eu e ela. Primeiro sorriso da noite. Deus, ela é linda!


Odeio sair de casa sem comer. Fome desgraçada. Tinha que ter dormido mais cedo ontem, mas com aquela menina na cabeça eu fiquei revirando a casa, lendo um monte de coisas pela metade, surfei na net, li Fernando Pessoa e até me aventurei a começar o Moby Dick. Noite desesperadora e agora acordei atrasado. Hoje é dia de trote, só espero que aquela menina apareça...


Receita e Conto: ®Ҝ

sábado, 9 de maio de 2009

O saco


O cheiro é de carne estragada, quem não conhece não diferencia do cheiro de merda. Insuportável. Arde a carne da narina. Depois de quarenta minutos descendo por um desfiladeiro numa embrenhada lateral quase esquecida no morro dos Cabritos, Joca e seu sobrinho encontram o saco preto embrulhado em fita isolante. Geralmente não tem cheiro. Essa semana foi aniversário de Carlinhos e eles atrasaram dois dias no "arremate", como chamam.

- Algum cachorro deve ter rasgado a porra do saco. Que merda! Agora jaé, Carlinho, jaé! Aceleraê!
O garoto desviou da galhada, pulou por cima do saco, se agachou por trás e já subiu levantando aquela massa mole e pesada que escorria e dobrava no meio.
- Vira pra cima porra! Assim vai cair! Deixa que eu pego essa ponta, pega alí ó. Isso, isso!

O fedor era tão intenso que assim que posicionaram o saco nos seus braços correram desengonçados de qualquer maneira morro acima. Carlinhos desviou do galho retorcido sob seu pé esquerdo, mas se apoiou com tudo numa pedra solta que escorregou seu corpo de cara naquele saco inflado de lixo. Seu nariz entrou com tudo num rasgo longo daquele saco. Seus pêlos todos se eriçaram imediatamente, as mãos, hipersensíveis, empurraram seu corpo para longe, a ardência na parede do nariz, na boca, na alma era forte demais. Puxou o vômito amarelado de arroz, cenoura e galinha por cima do saco empapando a camisa.

- Porra Carlinho, levanta daí, maluco! Pensa não, depois tu limpa. Vem, vem cara!
A tontura enfraqueceu os joelhos de Carlinhos, seus olhos estavam embaçados e por alguns instantes estranhou um frio no lado esquerdo da barriga.

Sobre o morro estava estacionado o caminhão de lixo de 1976 que seu tio usava para recolher as sobras do trabalho dos que comandassem o morro naquele momento. Era um serviço de "despacho", como tio Joca dizia. "Com o lixo do morro vai embora o lixo do morro" e outras ditados que animavam aquela jornada. O mais famoso? "Sempre traga saco extra". O preço não se negociava, era fixo. Duplicava com dois, triplicava com três, matemática elementar. Tinha um percentual pro "Bira", que era o lance de cremar e tudo, de noite, o resto era conqüenta-cinqüenta pro Joca e pro Carlinhos. "Pro futuro do moleque", ele dizia a Alzira, sua irmã.

O caminhão já estava a caminho e o Carlinhos estava quieto demais. Cabeça pra fora da janela, corpo virado pro lado, braço mole.
- Tá legal, Carlinho? Carlinho? Carlinho!!
Puxando pelo braço do sobrinho como que para acordá-lo, Joca viu o corpo mole escorrer para cima do seu, enfiou o pé no freio e botou a mão pra fora mandando as buzinas todas tomarem no cú. Colocou a cabeça de Carlinhos em cima de sua coxa e vasculhou sua roupa imunda de vômito. Passando a mão com pressa pela camisa Joca sente Carlinhos contrair ainda mais as pálpebras em dor e nota que o molhado do lado esquerdo do abdômen estava quente. Um caco de vidro tinha penetrado fundo, talvez até o rim. O sangue escorria quente e sem parar. "Como é que a porra do moleque não me fala nada?"

Não podia deixar o caminhão, pegar um táxi, que fosse rápido ao hospital. "O reboque vai fudê tudo", pensou. Não podia deixar o caminhão, não podia deixar o sobrinho. Meteu o pé pro Miguel Couto, acelerou, rosnou atrás de todos os carros, buzinou, gritou que era emergência. Ouviu gracejo de playboy, policial gesticulando, madame gritando assustada. Estava no posto ao lado do Jóckey.

- Porra de sinal filho-da-puta! Güenta, Carlinho, güenta porra! Tú é forte moleque, segura!
Foi quando viu um policial se aproximando, gesticulando para que ele aguardasse. Joca ouviu o barulho surdo do corpo de Carlinhos escorregando sem vida para frente do banco, olhou o policial, o Miguel Couto a cinqüenta metros. Carlinho caído. Policial. Miguel Couto.

O sinal abriu. Joca acelerou o que pôde, passou pelo Miguel Couto, seguiu em frente, Lagoa-Barra.

Emprego fixo tá foda. Carlinho era moleque safo. Sempre tenha saco extra.

Conto e receita: ®Ҝ

domingo, 5 de abril de 2009

Selene



As unhas delicadas de Diana pousaram lentas sobre o livro de Ademar, bem sobre a página aberta, denunciando - com o tempo que ele levou para se assustar - seus olhos perdidos no céu.
- Pai, por que você finge que está lendo de noite?
Um sorriso desconcertado baixou olhos acinzentados até as mechas negras da menina de vestido verde musgo e casaco azul de lã.
- Como?
- Pai, tem anos que eu já sei que você não lê aqui nessa varanda de noite. Eu sei que você vira a cadeira no meio do ano e desvira ela perto do fim do ano e que às vezes você abre no início de um livro que está "lendo" a semanas, coloca o marcador de trás pra frente, pega a lapiseira e não dá um traço no livro e essa semana você pegou o livro errado! Por que você finge que está lendo?

Ademar largou o livro sobre uma mesa de centro daquela varanda enorme no segundo andar de um casarão em Santa Teresa, olhou para os olhos azuis de Diana e pegou nas suas mãos macias e suadas levando a menina a sentar-se na cadeira de couro vinho ao lado.
- Pensei que você não notasse.
- Pai, você está bem?
O sorriso de Ademar permaneceu enquanto seu rosto virava novamente para o céu. Seus olhos só se desprenderam dos de Diana quando o ângulo certo o punha de frente para a lua. Quando ela respirou fundo, olhando fixamente para o pai, sentiu suas mãos serem pressionadas de leve por aqueles dedos gordinhos e um leve aceno da daquela cabeça grisalha a indicou que acompanhasse seu olhar.
- O que você sabe sobre a sua mãe?

- O que a vó me falou, porque o senhor nunca me fala nada dela! A vó diz sempre que se vocês não tivessem casado ela ainda estaria viva. Acho isso bizarro.

Ademar apertou mais uma vez as pequenas mãos da filha e acenou para que olhasse para o céu. Era uma noite límpida. A lua parecia estranhamente clara, luminosa, como um gigantesco olho por sobre a cidade constelada de respingos amarelos, vermelhos e brancos.

- Está vendo a noite?

- Pai, cê tá legal?

A mão de Ademar pressionou com alguma força a mão da filha para em seguida soltar lentamente dedo a dedo. Diana buscou as mãos gorduchas do pai com carinho e apertou.

- Não, pai, me conta você. O que tem a noite?

Ademar sorriu.

- A noite é filha do Caos e mãe do Céu. Ela tem um nome: Nyx. Sem parceiro ela gerou o sono e a morte, Hipnos e Thanatos, os sonhos, as angústias, a ternura e o engano. As noites eram prolongadas pela vontade dos deuses, que paravam o movimento do Sol e da Lua a fim de realizarem suas proezas. Alguns casamentos de deuses tiveram noites de núpcias que duravam meses. Nyx percorre o céu envolta num véu negro, sobre um carro atrelado a quatro corcéis negros cujos cascos e olhos são estrelas cadentes. Alguma vez você viu estrelas cadentes lado a lado? Então imagine o tamanho desses seres. Quando algum pecado, algum descomedimento, gerava fúria da noite – que sumia com crianças, enviava pesadelos intermináveis e os homens tinham medo de dormir, quando isso ocorria, imolava-se uma ovelha negra. Sacrificava-se uma ovelha negra. Aqueça a água para o meu chá que continuaremos a conversa.

- Então, pai. Conta. Acho que estou entendendo.

- O maior furo no manto da noite é a lua. Os raios da lua sempre foram fecundantes, poderosos fertilizantes. Era óbvio. Nos dias que se seguiam ao plantio, não só as ervas e frutos estavam maiores como o sêmen da lua ainda se conservava sobre elas, na forma de orvalho. Para a Noite a semente nunca passou de massa inerte, absolutamente desprovida do poder de germinar. Esse poder pertencia à divindade da fecundação, a Lua. Somente as mulheres faziam prosperar as colheitas, porque somente elas estavam sobre a proteção da Lua, somente elas tinham o poder de germinar internamente, amadurecer e gerar frutos.

Os lábios de Ademar se esticaram num quase-sorriso forçado. Alguma inoportuna imagem lhe roubara a concentração.

- O chá, filha. Inferno é não poder com o açúcar mais. O chá e o adoçante.

- Para a Noite, que gerou sozinha, o homem não tem função maior que romper o hímen para que os raios da Lua possam fecundar o ventre, o âmago da Terra, que também é uma mulher, Gaia. Os raios da Lua eram tão poderosos que bastaria a mulher se deitar nua sob o quarto crescente para ficar grávida. Para a Noite, o homem é dispensável. Mas a gravidez é um processo penoso, mesmo para divindades. Na Babilônia, Ishtar, a deusa Lua, ficava indisposta durante a lua cheia, quando então era instituído o sabattu, ou melhor, o sapattu, donde o hebraico sabbat, o “repouso do coração”. Durante a indisposição de Ishtar, no período da lua cheia, guardava-se o “sábado”, não se podendo executar nenhum trabalho, viajar ou comer alimentos cozidos.

- Pai, o que isso tem com o livro? O que tem com a minha mãe?

Ademar sorveu todo o resto do líquido naquela infusão bruxuleante sobre a sombra da noite iluminada. Deixou que seus olhos nebulosos se desviassem do luar por algum segundo imperceptível enquanto abria os lábios deixando de lado a xícara vazia e fumegante.

- Eu disse que teria? Não me olhe assim, filha. Também não neguei que tivesse. Você descobre. – Apontou para a lua, brilhante, e fechou os olhos.

Conto e Receita: ®Ҝ


sexta-feira, 27 de março de 2009

Inocência


Todos ali queriam ouvir ele falar. Pelo que ele sabia, pelo que todos sabiam, era o último membro de sua tribo. Um rapaz indígena relativamente novo, as marcas no rosto e pescoço, que se podiam ver naquele terno (que pareciam ter costurado ao redor do corpo dele) indicavam que já parecia ter passado por um ou mais ritos de passagem. Pelo menos era uma mensagem que se ouvia entre tantas outras de tantas línguas que se alvoroçavam em torno daquele pequeno homem de olhar triste, cabisbaixo e concentrado.

Encontrado numa clareira aberta pela queda de um avião na floresta ombrófila densa da amazônia, foi logo cercado por repórteres, antropólogos, psicólogos, indigenistas, geógrafos, curiosos e famosos. Acredita-se ser o último remanescente de sua tribo. Até onde se sabe o avião parece ter incinerado todos os seus familiares, companheiros, toda a sua cultura. "Ab-ka-bôi-tê-râ", como ficou conhecido, por não repetir nada além dessas palavras quando foi encontrado, não fala uma língua derivada do macro-tupi ou do macro-gê. Outras tribos indígenas chegaram a oferecer membros para ajudar a decrifrar a língua de Ab-ka-bôi-tê-râ, mas no início alguns chegaram mesmo a insinuar aos lingüistas, antropólogos e psicólogos de plantão que ele estava em estado de choque e não articulava palavras, só misturava sons. Uma psicóloga chegou a dizer que o trauma havia eliminado a conexão lógica entre suas palavras e seu pensamento e que este último deveria estar fragmentado numa espécie de vórtice que voltava sempre ao ponto do trauma. Junto com um sociólogo ela descreveu uma enorme teoria sobre a sobrevivência do indivíduo ao que eles chamavaram de "juízo final do pertencimento" e sobre a solidão, considerando que ele não nos compreendia como "seres humanos" e talvez achasse mesmo que estava morto e sendo punido.

O fato é que Ab-ka-bôi-tê-râ, como tudo, deixou de ser novidade. Assim que perceberam que "ab-ka-bôi-tê-râ" significa: "Me deixem em paz!" foi inserido às pressas numa aldeia na esperança de que ele se socializasse. O que não aconteceu. Depois de sete meses o pajé da aldeia foi reclamar junto a um fucionário da Funai que "Me deixem em paz" queria viver entre os caraíbas (homens brancos), porque fazia tudo sozinho, não compartilhava da vida na aldeia e achava que podia viver melhor entre os caraíbas, que "vivem isolados também".

Então Ab-ka-bôi-tê-râ foi morar numa universidade e serviu de estudos para um antropólogo e um lingüista. Mais alguns anos se passaram e as pesquisas na língua nativa do pequeno índio foram completadas. Quando tudo o que pôde ser traduzido o foi, quando os três, já amigos, eram fluentes na língua do pequeno índio, começaram a vir à tona algumas questões interessantes e o apoio à pesquisa foi escasseando à medida em que Ab-ka-bôi-tê-râ proibia a publicação do que quer que fosse conversado entre eles sob o risco de simplesmente não falar mais nada. O que de fato ele chegou a fazer, por algumas semanas, deixando todos loucos porque muitos já viviam da verba para a pesquisa daquele indiozinho.

Foi no meio dessa bagunça que Ab-ka-bôi-tê-râ começou a estudar profundamente a cultura e os costumes dos homens brancos. Ao mesmo tempo em que estudava sobre religiões do mundo todo, passava horas vendo TV. Quando começou a produzir um material sobre seus estudos, preferiu a caneta e a mão, mesmo já sabendo operar o computador. Dormia abraçado a seus escritos e garranchos. Nunca teve boa letra. Sob o risco iminente de finalizarem a pesquisa e tirarem seu acesso aos livros, acomodações e cozinha da universidade, Ab-ka-bôi-tê-râ resolveu dar uma palestra para expor o resultado de seus estudos. Foi um enorme espanto para todos, até então ele parecia ter verdadeira aversão a palcos, flashes e palestras.

"- Boa tarde. Sei já se passaram quatro anos que me encontraram. Já sabem minha história bastante, até folder explicando vocês receberam quando entraram. Eles me melhoraram na foto, pareço mais alto. Espero que não fiquem desapontados com o que vou falar. Quando avião caiu no meu mundo - a palavra que quero dizer é mundo sim, não é a tribo de vocês - eu estava em retiro na floresta. Por isso não morri. Preparação para "kaidjé" ou "pajé", líder religioso. Desde novo, neto do último "kaidjé", eu estudava só religião. Só magia. Só o sagrado.
Quando aqui aprendi sua língua. Fiz amigos. Nunca esqueci meu papel no mundo. Eu sou kaidjé, eu estudo religião, eu estudo sagrado.

Sagrado é tudo aquilo em que acreditamos. Sagrado é crença, sagrado é fé. O sagrado fica no nosso redor na cabeça, nas decisões, no que é importante acima de tudo. O mais importante. O essencial. O sagrado, no meu mundo, me disseram era sobre o que mais se fala num lugar, numa tribo, numa aldeia. Aquilo é sagrado, porque o que mais se fala, o que mais a gente vive, é o que faz nossa realidade. O sagrado faz nossa realidade, é nosso universo, "sistema de crença" como o amigo Wladimir chama.

Então quando aqui, observei o teu sagrado. Coisa que mais falam. Coisa que mais respeitam. Coisa que tem medo, que respeitam e nunca compreendem. Mas coisa que controla toda vida de vocês. Aqui chama "Mercado" o que no meu mundo era "sagrado", ou "Du-pâ-niaki", a "Alma do Céu e da Terra".

Admiro fé de vocês. Estudei 3 anos todo dia, profundo estudo, da língua do seu Deus. Ouvi os sermões de seus kaidjés, todos os dias na TV. Muito ritual eu vi. Mesmas palavras, mesmo ritual. Sempre. Anotei palavras chave, tudo tudo. Li teorema do Shmidt: "Lucros de hoje, empregos de amanhã", pesquisei mais 60 anos de notícias e lucros aumentam, desemprego também. Acompanho os sermões hoje. Ainda dizem Schmidt. Só fé explica isso. Muita fé. Fé no salmo: "Lei da oferta e procura e confiança". Muita fé.

Muito não consegui entender. "Índio", vocês dizem. Pode ser. Com certeza. Índio. Mas da lógica e da filosofia, Ricardo, Marshall, Keynes, caraíbas chegaram em discursos que um índio vê o vazio. Fico preocupado da inocência de vocês!

Li os jornais. Vi os experts, pastores da religião do Mercado falando. Anotei palavras, frases. Queria aprender. Não gostei de comparar. Quando no meu mundo dávamos espaço pra pensar, gostávamos aprender e ver a visão do outro. Comparando os pastores falam não a mesma língua, a mesa coisa. Adestrados, como animais. Todas análises iguais pedem o que religião pede: submissão, flexibilidade (para "Mercado" impor leis e dor), sacrifício, tudo sob "dura e justa lei do Mercado Financeiro". Toda religião pede sacrifício, justifica dor. Coloca felicidade no além. Toda religião de caraíba. Importante é ser submisso, dócil e preparado sempre para o sacrifício.

Com tempo cortei que sobrava nos discursos dos pastores do "Mercado". Decobri fórmula de três pontos para que "Mercado" pedia. Porque deuses tem estranha mania de precisar da gente, seus fiéis, para existir. Mas não passa cabeça de ninguém domesticar Deus, nem em cabeça de caraíba domesticar Deus-Mercado. A fórmula, tirando toda sobra que economistas, especialistas, adestradores e pastores de TV dizem é: "O Mercado precisa de mais credibilidade, flexibilidade e liquidez". Vou repetir as oferendas: Credibilidade, Flexibilidade, Liquidez. Faladores de TV, adestradores religiosos dizem todos os dias: Credibilidade - "acreditem em mim" - flexibilidade - "se virem, dêem o seu jeito, sejam flexíveis" - e liqüidez - "dinheiro": "Acreditem em mim, se vira e me dá o dinheiro". Me parece ladrão de gravata. Mas índio não entende nada. Então faz palestra.

Aí Índio dá o dinheiro. Mas o Expert do Índio errou. Índio perde dinheiro. Dinheiro é comida, é trabalho, é suor. Índio jogou meses da vida no lixo, quer entender porque médico não tem liberdade pra errar, engenheiro e condutor de trem não tem liberdade pra errar, porque tem cadeia. Penso que todo direito de errar é dos economistas, experts, comentadores. Representantes do "Todo-Poderoso", eles podem dar dinheiro às máfias internacionais e lamentar que isso seja feito, de aniquilar os direitos dos povos todos, o do índio mais fácil que índio não se defende certo, de dizer que não podem fazer nada a respeito.

Índio tem humor, entende deboche. Não acha engraçado quando Attali debocha que economista é "sempre capaz de dizer no dia seguinte porque na véspera disse o contrário do que está acontecendo hoje". Pra Índio isso é definição de palhaço também.

Economia é anestésico como latim de igreja, como palavras sem sentido que índios pronunciam quando querem impressionar caraíbas. Hoje economia ganha onde igreja perde: maior centro de fé da humanidade. Toda fé depositada no Mercado. Não basta fé, é preciso fé e dinheiro, muita "liqüidez", credibilidade, flexibilidade, liqüidez. Confia em mim, dá o seu jeito, me passa o dinheiro.

Até índio percebe, na economia ortodoxa, na lei da oferta e procura, no liberalismo ideal, uma utopia. Até índio vê uma religião, com fiéis, papas, inquisidores, seitas, ritual, latim (matemática), dissidentes, e, talvez um dia, um alienígena venha mostrar o ridículo disso tudo. O "verbo" é muito forte, precisa ser de fora desse mundo pra não mergulhar no turbilhão da TV, do jornal, da revista.

A "mão invisível" é avatar do espírito santo, do "Mercado" onipotente, onipresente e anterior ao próprio tempo (pergunte a um economista: "sempre existiu mercado?"), ser de razão superior, substância imanente, princípío dos seres, da alma, da vida - "você não passa de um raciocínio custo/benefício" - Mercado é causa que cria o mundo e que tem tudo da divindade, até poder sobre destino: ninguém pode escapar do "Mercado", Ele existia antes de você e existirá depois, é impossível pensar numa pós-economia porque é impossível pensar um mundo sem Deus. Problema da religião é que fica difícil pensar fora dela, ainda mais se vemos o mundo através dela.

Agora vivo religião pura. Sem ser humano. Pareto escreveu economia pura, tirou Marx, que pensava ser humano. Agora todo trabalho da economia - voz de Deus - é raspar, esfregar, limpar, passar a limpo, reescrever tudo que cheira social, humano, gente. Culto à luz e à pureza vira "mariologia" econômica. Idolatra virgindade entre equações. A matemática preserva do contato, da carne, do tempo. Miséria, desemprego, dinheiro, luxo não existe, só o destino, obra de Deus, melhor dos mundos, único possível."

Foi quando o microfone foi cortado e três homens e uma mulher enormes vestidos de branco entraram com macas e uma camisa de força.

Conto e Receita: ®Ҝ

terça-feira, 24 de março de 2009

Cabeça de homem.


- Me abraça, me agarra, me lambe, morde, fode, come, cospe, mata, atravessa. Teu corpo como carne, meu seio como massa, como manga na tua mão, na tua boca. Me prende, fere, segura, puxa, volta, geme, levanta, esfregando a mão pela minha nuca, puxando o cabelo pra tua língua que mergulha atrás da minha orelha... arfa mordendo e respirando pesado, teu corpo pesando em mim. Teus olhos mordendo meu rêgo, teu cheiro entre as minhas coxas, minhas unhas, tuas costas...

- E aí, o que ele disse? 

- "Não entendi. Diga "Conta" se deseja uma segunda via ou para resolver problemas referentes à sua conta. Diga "cancelamento" se deseja cancelar nosso serviço. Diga "técnico" se está tendo problemas técnicos. Diga "atendimento" se deseja falar com um de nossos atendentes."

- É. São todos assim.

Conto e Receita: ®Ҝ

quinta-feira, 12 de março de 2009

Construindo um castelo



- Puta que pariu, o Rio de Janeiro é um ovo, cara! Um ovo de codorna!!! hahaha Tá ouvindo? Essa porra tá chiando demais. Me liga quando chegar. Tô, tô sim. Três, e daí? Vem, vem, vem. Tchau. 

- Ei, cara, qual teu nome? 
- Antônio, senhor.
- Pega o "senhor" e enfia. Relaxa, é Felipe. Então Antônio, você mora no Rio há quanto tempo?
- Eu sou daqui, senhor.
- Vai ficar com o cu cheio de "senhor" cara, você que sabe! Pois é... ih, me vê mais um desse amigo aqui. Tá furado esse troço, hein Antônio! Não, não, não vai não. Ficaí. Meu primo tá chegando e eu preciso falar. Quantas namoradas você já teve, Antônio?
- Seis, senhor.
- Ah, ôu, Tonhô, fala sério cara! Seis? Cê é do Rio mesmo?
- Depois eu entrei pra Igreja, senhor. E casei.
- Opa! Derrubei o copo, cara. Tá certo... Desculpa te incomodar aí Antônio, traz o refil aí que eu vou ficar aqui quietinho. Pxxxiu, pxxxiu. 


- Deus do céu. Cacete, olha pra você. Se babou todo.
- Fala, cara! Babou nada, tô suado. Sentaí. Ihhh, olha tua cara... Você vai reclamar, encher o saco, então escuta pra poupar saliva: Eu não vou dirigir. Você me leva pra casa depois daqui. Tó, taí a chave. Se quiser fica com ela, ou me devolve amanhã que eu venho aqui pegar o carro. Outra coisa: só saio daqui depois que a gente colocar as cartas na mesa, hoje.
- Que carta o quê, seu maluco? O garçom me falou que você está aí falando palavrão e gesticulando. Pára com isso e fala o que você quer que eu te levo depois.
- Porra, Antônio. Eu não enchi com a tua "Igreja", você vem encher com meu palavrão? Vacilando... mas tu é um cara maneiro e eu te perdôo meu filho: In nomine pater et fili et spirictu santi e o escambau. 
- Já falei pra falar baixo, cara! Vai ficar de sacanagem eu te levo agora.
- Você falou pra gesticular baixo, esperto, não falar. Eu tô alcolizado, não tô surdo. Pára com a machisse. Cê não vai me levar nem me fazer rir. Quando eu te falei das cartas eu tava falando sério. Cartas. Baralho.
- Ah, quer jogar truco agora? Vai perder, doido.
- Não. Pede um chopp pro Antônio e espera.
- Antônio, me vê um suco de laranja, por favor, e um chopp.
- Obrigado.
- A laranja é pra você.
- Ah. Só vai me fazer mijar, você sabe.
- Menos mal. Que que você quer falar, Felipe?
- Uhh... "Felipe". Parece minha mãe. Que se foda. O lance é que hoje eu encontrei a Carla. Achei que ela era tipo um quatro ou cinco de copas pra mim, sabe? Mas cara, ela tá linda e com a cabeça legal e tudo o mais. Não diria "Ás", mas foi um "sete", ou um "pagem" maneiro. Tem futuro.
- Tá, agora eu viajei. Que lance é esse de "pagem", "ás" e tudo o mais? 
- Ah, pagem não tem no baralho que você conhece. Pagem é o "dois". O dois você sabe, pode ser um começo, um potencial, uma semente, um espacinho pra coisa crescer, ou pode ser só dois mesmo. Você e ela ali. Dois segundos de um sorriso correspondido na multidão, dois minutos num bloco de carnaval, duas horas numa festa, dois dias numa semana. Mas sabe, não é mais que isso, é dois. O dois é aquele maldito enigma. A merda do dois é que ele fica em aberto. Não é como o três.
- Tá empolgado, hein!
- É essa lua, olha!
- Tá linda mesmo. Foi a Carla, não foi?
- Ah, ela agora é o dois, sabe? 
- O dois com potencial, imagino. Ela nunca vai ser o dois das duas noites, das duas semanas. Não pra você.
- Ah, não tem como, a gente foi noivo. Morei com ela...
- Tá rindo de quê?
- Ah, cara. Eu tinha 19 anos. Era um moleque. Tava vivendo um sonho ali e nem me ligava. Não tem arrependimento, não tem nostalgia, só tem a graça do destino mesmo. Essa dança maluca. Se Deus é safo de não jogar dados com o universo eu não sei, mas a gente joga fácil com a nossa vida, não é?
- Você sempre jogou. Eu não.
- Nem vem que você arriscou pacas. Tá namorando agora esquece que quando estava solteiro você escrevia cartas que só faziam sentido depois da terceira? Que bolava umas surpresas absurdas. Pagou pro garçom pra ele levar uma carta dentro do cardápio pra Fernanda que eu lembro. E nem ficou sério com a Fernanda, tá namorando com a Laila. Malandrão você, nem vem.
- Isso não é arriscar, é investir!
- Tem mesmo diferença? Não responde. Pensa aí que eu não terminei minha história das cartas. Te falei que o dois fica em aberto. Pois é. O dois fica em aberto, diferente do três. O três é finito. Tem aquele gosto meio triste da resignação, sabe? Pensa nos relacionamentos de dois meses e nos de três. Os de três terminaram porque não davam mais. Passou o prazo de validade daquela perfeição infantil do início. A perfeição mesmo, aquela do sorriso diário, das cartinhas pela manhã antes de sair pro trabalho, do dia inteiro no celular mandando mensagem só dura dois meses. O terceiro é a prova. Sair uma segunda vez é ainda tentar a primeira, de novo. Sair uma terceira é ver o que tem depois. Se o depois não agradar, se não morder na alma e cravar legal que nem âncora de navio, ferrou. O três é meio fechadão, sabe? É como um tripé mesmo. Você é engenheiro, saca isso melhor que eu, com dois pontos de apoio é complicado erguer qualquer coisa, com três vc faz uma cadeira. Ela tende a cair, eu sei, mas ainda assim dá pra fazer. Dá até pra sentar por um tempo, só não rola se sacudir em cima que a base não é boa. Mas aí não tem como, você tem que correr pra fazer o quatro. Porque com o três não tem jeito, mais cedo ou mais tarde a gente cai.
- Quero ver você correr ali e fazer o quatro, isso sim. Ah, ô, fecha a cara não. Isso dos números tem a ver com grau de intimidade também, não é?
- Tem a ver com tudo cara! Você sabe que quando a gente bebe as respostas vêm, tudo se encaixa e que nas mesas de bar todas as questões de política internacional, amor e filosofia se resolvem em três ou quatro rodadas.
- Pra você pensar tanto assim é porque já rodou faz tempo.
- É, semgraçalho pracadinho você. Quer ouvir ou não?
- Agora tá bom, continua aí. Obrigado Antônio. Desculpe o inconveniente, ele vai ficar quieto. Tem açúcar? Obrigado.
- Tô afim de tomar isso não. 
- Então levanta e vamos embora.
- Chatão você, hein! Coloca bastante açúcar nisso então.
- Vai falando aí. Tá engraçado ouvir.
- Eu vou escrever isso, cara... Que cara é essa?
- Escrever se você lembrar.
- Tô te contando pra você me ajudar, pô.
- Ah e eu pensando que era pelos meus belos olhos verdes. Tá, pode tomar.
- Valeu. Então... a Carla chegou no oito sabe? Quando a gente começa a pensar em juntar grana e viver uma vida confortável a dois? Tipo viajar, comer fora direto, fazer curso junto, aprender a dançar, a gente fez kung-fu junto e forró.
- Legal, cada um com as suas vontades e os dois juntos. 
- Quase isso. Mas ela chegou no oito, isso é que é o importante. Ela era meu oito perfeito. Perfeito naquela hora, sabe? No oito a gente vive cada dia como se fosse o último. A gente era noivo, morava junto, mas nem tocava em assunto de casar. Filho era realidade distante, encarada como funeral, sabe? Casamento você acha que vai rolar, você encara numa boa, mas não fala tanto e age como se pudesse pensar nisso amanhã. Aquele "amanhã" metafísico, tá ligado? Filho não é agora, o agora é a realidade, então filho é irreal no oito, ou surreal, sei lá. O oito é meio budista, sabe? Se você pensar bem até o número me lembra o gordinho sentado meditando. Maior embaixo com a carequinha redonda em cima. Simples assim. Namoro de gente nova. Cabeça de gente nova. Essas coisas.
- E o oito vira nove?
- Nêgo supõe que sim, que rola uma progressão nisso. O oito vira nove quando está completo. Qualquer número vira outro quando tá completo. Ele tem um ciclo, sabe? Acho que todos têm um ciclo. Mas também rola do oito virar cinco. É aquele nosso conhecido "Vamos dar um tempo?". hahaha
- Pois é. Legal, então o dez é o fim, tipo: casou morreu?
- E não é? Hahaha, sacanagem. Talvez o fim daquele ciclo. Como namoro geralmente termina em noivado que termina em casamento que termina em...
- Divórcio.
- Eu ia dizer filhos. Porque aí sim o divórcio ferra legal com a gente.
- Ou com a cabeça da criança.
- Mas ninguém casa com a pretensão ou expectativa de separar. Pelo menos não devia. Eu acho. Vai saber, né? 

- Agora fiquei curioso aqui, e as cartas altas? Valete, dama, rei, rainha, coringa.
- Valete é o solteirão, sa coé? Aquele maluco com grana, solteiro, sedutor. Aí entra o naipe. Valete de espada é o solteirão pegador, aquele que não é solteiro convicto, é quase invicto! O de ouros é o playboy, ricaço, do programa caro, do carrão. De paus é o tarado, esse daí não tem como namorar. A não ser mulher bem otária mesmo. O de copas é o perfeccionista, tá sozinho porque escolhe demais, cheio de mania, todo romântico e exigente. Esse sofre, coitado. Ainda mais no Rio, onde a fauna feminina é sensível e calorosa que nem iceberg. 
- Tá pessimista, hoje hein!
- Errar é inevitável, eu prefiro errar sendo pessimista.
- E o resto?
- A dama é a que está esperando. Ela pode esperar juntando grana, comprando apartamento, aí é de ouros. Ela pode esperar na janela, deixando a trança crescer pra tacar pro príncipe, são as mais exigentes, as mais pentelhas, eu acho. Mas não tem muito disso por aqui, das de copas. Tem as ninfo também, estilo femme fatale, saca? São as de espadas. Difíceis de segurar. Tipo neguinho viciado em novidade. As de paus são aquelas que só te querem se tu é um cara estável, com emprego, família, projeto, tudo nos conformes, o lance delas é o cara "próspero".
- Tá filósofo hoje. Vamo indo? Me conta o resto no carro. Antônio! Fecha pra gente? Obrigado. Então, e os Reis e Rainhas?
- Ah, esses são raros. Sabe aquele grande amor? Pois é. Tua Rainha. O lance é que você pode passar a vida procurando e não achar a pessoa que te entende no olhar, saca teu humor pelo tom da tua voz, tem aquele lance de pele que você não explica - mas o cheiro dela te deixa de pau duro e tá tudo certo - a pessoa que te observa e te respeita, te compreende e te acompanha e, mesmo assim, ainda vive a vida dela, tem os momentos dela, as idéias que só ela sabe, os projetos pessoais, sabe que tanto é maneiro conversar sobre a relação quanto às vezes o bom mesmo é calar a boca e dar um abraço. Sabe aquela pessoa filha da puta que te cala com um beijo na hora certa? É... e sai te deixando mordendo os lábios e pensando: "caralho, é ela". O lance é que no fundo todo mundo quer uma Rainha, mas ninguém quer o ônus de ser Rei. Porque só um cara fodão mesmo pra manter uma dessas. Dessas que te dão tudo o que você quer e exigem, com o olhar, com um toque, com gestos, com sorrisos e sinais, exatamente a mesma coisa de volta. Conviver com o que a gente quer é um inferno! Ser humano é um bichinho egocêntrico e vadio. Difícil pra gente enxergar o outro como outro, mais difícil ainda viver o outro, quase impossível deixar te enxergar o... cacete, se quer que eu entre então abre a porta... que que eu tava falando mermo?
- Da dificuldade de conviver com as Rainhas.
- É, pois é. Querer a Rainnha é mole, foda é ser Rei, cumpadi. Quando as meninas falam pra gente que tá faltando homem, tem umas que acham que tá faltando homem mesmo, mas a maior parte fala que tá faltando Rei. Que príncipe é coisa de adolescente.
- Agora eu quero saber só uma coisa.
- Fala.
- Onde é que você se coloca nisso tudo?
- Então... sabe o coringa?

Conto e receita: ®Ҝ

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Em revista


Ridículos, ridículos os sonhos alheios. Era o que ele pensava. Sentado no metrô pela primeira vez em 30 anos voltando da Pavuna. Sentado de costas. Ao seu lado sentava uma mulata, com as feições finas, nariz pequeno, deveria ter algo de europeu em algum galho do caldeirão genético que desse aqueles olhos pequenos e castanho claros. Ela lia uma revista de moda que ele não pôde identificar, se deteve sobre uma página qualquer que falava de pechinchas no vestuário, como a bota que uma tal modelo da moda - Rachel Zimmermman, ele achou o nome engraçado e decorou porque conhecia um Thiago Zimmermman dos tempos de escola - havia encontrado num brechó em Paris. Sim, ótimo, mas quando aquela moça iria a Paris? Como são ridículos os sonhos alheios.

Ela degustava as roupas, o sorriso, o caimento, cortes e até a costura externa grossa e aparente da calça de couro da modelo. Tudo que ele achava completamente ridículo e, além de esteticamente decadente, mais um artifício imbecil de uma indústria que vive de cobrir a vacuidade alheia. Ela se deliciava com aquela revista. Era de se imaginar que tivesse mais de quarenta delas em casa, ensinando qual o batom vai com qual blusa, quais as tendências daquela estação, a cada três números falando sobre como o preto emagrece e tudo o mais. Porque ser magra não é moda, é lei.

Foi quando ele viu os muros que cercavam os trilhos do metrô. Em alguns pontos tão altos que ia sumindo o pouco que sobrava de um filete de céu azul, em outros mais baixo, mas quando baixo demais, encimados por arames farpados. Algo ali lhe lembrava as imagens de um campo de concentração, talvez fossem as faíscas da eletricidade que brilhavam como um flash - os "paparazzi" da mulata, ironizou - quando o metrô da linha 2 passava por uma curva acentuada.

De repente um senhor que deveria ter seus sessenta para setenta anos - e que ele lembrava de ter reclamado muito logo no início da viagem com dois passageiros e um menino que parecia ser seu neto, para não sentar, com qualquer ar meio arisco de orgulho ferido - começou a dobrar os joelhos e, se agarrando na barra vertical no centro do carro do metrô, fez um movimento em curva enquanto sua mão permanecia firme e seu corpo ganhava velocidade em direção ao chão. Foi uma cabeçada magistral, com direito a quique e tudo. Todos se levantaram, inclusive a mulata. Por alguns instantes o homem sentado perdeu-se nas curvas das coxas dela antes de se ver obrigado a levantar também, mesmo que pensasse que nessas situações a multidão mais atrapalhava que qualquer outra coisa, não suportava a pressão, a recriminação dos olhares alheios.

Todos se adiantaram em direção ao velho, cuja cabeça jazia no chão onde o neto ajoelhara e, se segurando no bolso da camisa do avô, começava a sacudir e chamar com um sotaque indiscernível pelo senhor desacordado. A mulata se adiantou em tom autoritário a todos que não tocassem no senhor, agachou com a mão por trás do pescoço meio torto e inclinou-o com a cabeça pra cima, escorando levemente por trás e procurando por ferimentos. Um pouco de sangue saiu por entre aqueles dedos delicados e ela simplesmente olhou para o menino com algo entre pena e seriedade.

- Seu avô só desmaiou. Está tudo bem. Na próxima estação vamos levá-lo para fora e...
- Non capisco. Cosa a sucesso? - Retrucou o menino com os olhos arregalados e a bochecha salpicada de sardas.
A mulher olhou para os lados, esperando que a próxima estação chegasse logo, respirou fundo e disse:
- Non hanno bisogno di essere preoccupati. Sono una dotoressa. Era solo una lieve commozione nella testa. Il suo nonno avevo perso pressione ed era crollato. Nient'altro.


À boca do homem que sentava ao lado dela adicionou-se uma gravidade tal que seu maxilar parecia pesar uma tonelada e seus olhos quase saltaram das órbitas enquanto ela virou-se para ele e disse: - O senhor vai ajudar ou só levantou pra terminar de ler a minha revista?

Conto e Receita: ®Ҝ

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Anel


Olá, boa noite. O Narrador de uma história pode ter o poder que quiser. Pode ser onisciente mas afastado, como um Úranos - aquele inerte Deus-avô que a mitologia católica nos manda ignorar -, pode ser um deus de destruição em massa, hiperativo, vingativo e excludente como um Yavé, pode ser uma senhora acolhedora e matriarcal com seus filhos-personagens e ter umas mudanças de humor dignas de TPM´s homéricas como uma Gaia, ou um grande brincalhão cósmico-universal como um Loki ou um Hermes, que não só jogam dados com o universo como fazem ele cair embaixo do sofá e inventam os resultados.

Na história de hoje nosso demiurgo está feliz. Cansado de ouvir críticas de sua divina esposa sobre o machismo imperando no planeta Terra, resolveu dar um dia inteiro (do acordar ao dormir, não 24hrs, ok?) perfeito para uma mulher e moveu uns pauzinhos. Carla é uma jovem de 31 anos, solteira, com uma filha mimada de 7, e que mora com a mãe, uma senhora levemente surda, em um apartamento na Tijuca. Cumpri minha obrigação da introdução, professoras de literatura do sistema solar? Então creio que podemos começar a história agora.

Nas Mil e Uma Noites, história da literatura fantástica árabe que reúne em coletânea todos os contos e lendas folclóricas de uma vasta área do Oriente Médio, temos a história de Aladim e sua lâmpada maravilhosa, mágica, transcedental, incrível etc etc. Quase todos conhecem a história: uma esfregadinha, um desejo e "puf" (fumacinha que facilita os três marmanjos que arrastam o elefante pintado de rosa até a frente das câmeras)! Basicamente isso. Mas quem não leu a história "oficial" não tem obrigação de saber que havia um outro elemento mágico além da Lâmpada: um anel. Pois é, o gênio do anel - sim, o anel também tinha um gênio! não era um duende, fada, nem um leprechaun... - era mais "fraco" que o da lâmpada, incapaz de fazer malabarismos mágicos de nível hollywoodiano - como deixar todos os abdômens de Esparta engomadinhos ou conseguir que Nick Nolte interprete bem bêbado - mas conseguia realizar seus pequenos absurdos pontuais.

Como demiurgo oficial vou poupar-me o trabalho de explicar como o anel, das mãos de um magnata do petróleo de férias em Mykonos, foi parar no Egito e, de lá, um marido ciumento que não compreendia os presentes que a mulher lhe dava, livrou-se do anel jogando-o no mar, onde um peixe o engoliu e foi engolido por outro que por sua vez.... entendeu?

Pois bem: Carla comia peixe da associação dos pescadores de Copacabana, alí, pertinho do forte naquele domingo. (Lembrem-se do que eu disse: o narrador pode tudo e, além do mais, o demiurgo em questão estava feliz e tal... facilitou as ondas, alegrou uns surfistas no caminho... e... sim! Carla comia uma baleia! Mas fiquem tranquilos, ela dividiu com a filha!)

Uma carinha enrugada de menina descontente com os cabelos secando na frente do rosto solta:
- Manhêêê, tem um osso no meu filé de baleia!
- Cospe filha. Que foi? Machucou o dente? Mordeu o osso?

A menina cuspiu fora um anel de ouro branco com um rubi de cinco pontos cravejado sobre ele. E era lindo, delicado.

Carla imediatamente, com grande e legítima preocupação que o calor do sol sobre o metal naquela mãozinha pequenina pudesse queimar sua querida filha, pegou o anel com a delicadeza de um mastodonte e a velocidade de um bote de uma naja.
- Dá isso aqui! Tira a mão, tira, ti...

Com a graça de um orangotango de cartola ela levantou a filha pelos braços puxando o anel até que a chatinha largasse o conjunto anel-mãe e ficasse com a bundinha à milanesa. A menininha correu dando piti até o mar e agachou nas ondas, somente para ouvir de um pescador que "Aí não pode, minha filha"!

Incrível como o anel coube perfeitamente no dedo de Carla, foi o que ela pensava enquanto olhava fixamente para as pedras cintilantes no seu dedo a caminho do metrô. Na segunda estação entrou um sujeito alto, gordo, suado, com uma camiseta regata e um shortinho ridiculamente pequeno. Parecia uma criança lambona que cresceu enquanto andava e ficou com as roupas de quarenta anos atrás. Com a graça de uma garça obesa ele começou a encoxar nossa protagonista, mesmo que o metrô não estivesse tão cheio a ponto de "justificar" a alegria do banhoso.

Carla, super-animada com a idéia, pensou que se estivesse com um cara legal, não teria esse problema. Pensou que ele poderia ser gostosão também. No momento em que nosso amigo chupeta de baleia estava chegando para mais uma esquiada traseira e Carla girava o corpo para se livrar e gritar qualquer coisa com aquele digno senhor inconveniente, viu um homem grande, moreno, bem saradão - pareceria demais com a imagem que Carla fez do "namorado" há alguns segundos, se ela tivesse se detido a acompanhar o rosto e não o corpo dele, enfim, tinha o corpo dos sonhos de Carla e um rosto... como dizer... indefinido - vindo na direção de ambos.

- Ô seu animal, a mulher está comigo! Sai daí!
O truculento fornecedor da Pirelli afobadinho virou-se com raiva, mas, como todo malandro "coca-cola", perdeu o gás assim que viu nosso amigo agigantado se aproxegando em nossa protagonista. Não falou nada, só caminhou até um banco vazio e já estava quase sentando quando o metrô parou e ele saiu, sem sequer ver qual a estação.

- Obrigada, disse Carla olhando seu salvador do pescoço pra baixo, imaginando os gominhos do abdômen dele.
Ato contínuo entre o pensamento de Carla e nosso amigo sacudindo a camisa dizendo que o sistema de ar-condicionado não estava legal naquele vagão. Ela olhou-o nos olhos, castanhos, e agradeceu.

- Você não tá com a minha mãe!
Carla, mal pôde esconder o desânimo por não estar só naquela situação. Respirou fundo e, enquanto se virava para falar com a delicadíssima filhinha, pensou que gostaria de...

- Filha, quero dar uma volta em Botafogo, quer ir com a avó, Nádia? - Disse a avó (sim, a avó estava lá desde o início. É que ela é uma velhinha discreta) virando-se para a neta.

Carla simplesmente abriu um rasgo labial de orelha a orelha e despediu-se da mãe e da filha carinhosamente e aos berros. Não sem antes pensar na vergonha dupla pela situação do sujeito encoxante e da mãe surda. Queria muito que todos tivessem mais o que fazer além de olhar pra ela. 

Foi quando quase todo mundo ficou paralisado de susto. Alguns acharam que era um defeito das companhias de telefonia celular, a maior parte só ficou atônita com a sinfonia de sonzinhos esdrúxulos simultâneos e celulares caindo no chão e vibrando. Depois de uns quarenta "Alô?" incertos, todos já tinham mais o que fazer e o assunto passou de Carla ao inusitado dos celulares. Só um senhor idoso que, sem celular, queria saber se havia alguma catástrofe "na superfície". Mas Carla pensou que ele bem podia ficar calado.

Chegando em casa - Carla desejou uma viagem rápida, não me culpem - arrastando aquele homen lindo cujo nome Carla sequer havia pensado em perguntar, caíram rindo no sofá e estranhamente o som começou a tocar: Simply Red. As roupas pelo chão e Carla e o moreno desconhecido dignos de uma filmagem do Animal Planet: na parede como largartixa, no sofá como hipopótamos, no chão como um ataque epilético, no chuveiro como vítimas de um taser. 

No silêncio sepulcral que imperou depois daquela tarde deliciosa de domingo, Carla pensou no inusitado de tudo aquilo. Tirando o filé de baleia, todo o resto simplesmente não se encaixava: sua mãe indo fazer compras sem pedir dinheiro, celulares mais que polifônicos, sinfônicos, um moreno lindo que obviamente não tinha dado conta de suas celulites, sexo animal na sala que permaneceu arrumada, um homem com o corpo perfeito cujo rosto ela não sabia discernir nem identificar... foi quando sentiu fome, muita fome, e, naqueles momentos em que o tesão se amaina e o sono ataca implacável... ela bem desejou que ele fosse uma pizza de peperoni. Light.

Receita e Conto: ®Ҝ

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Carta ao filho


Quando olhar os pássaros, se um dia você olhar pra cima, você possa entender como funciona o teu pensamento. Leve, rápido, insano, livre. Que possa entender que é da natureza dele voar, não se fixar, não manter velocidade, altura, contar que a direção do vento e a sua força farão com que quase nunca uma linha reta seja o caminho mais curto entre você e seu desejo.

Quando olhar pro mar, se um dia você olhar pra baixo, você possa sentir o que acontece dentro do teu peito. Denso, lânguido, puro, imundo, reserva de vida. Que possa entender que, de alguma forma, por algum milagre, ele se refaz, reestrutura, busca o equilíbrio. Que ele tem o tempo dele, o tempo de uma batida no peito, o tempo daquela sensação de peso na alma, que precede a leveza.

Quando olhar nas fotos, se um dia você olhar pra parede, você possa ver o quanto tua natureza é humana. Que você é plástico, que muda, mudou e vai mudar. Que você teria sido um aborígene se tivesse nascido na Austrália, um pigmeu, um holandês, um vietcongue, que você seria enorme de gordo, ou muito magro, maior ou menor, mas ainda assim você, e, exatamente por isso, plástico, humano.

Quando olhar pelas ruas, se um dia você olhar ao redor, você possa ter compaixão pelas pessoas que confundem auto-preservação com agressividade e competição e colocam os dois sob o rótulo de "instinto". Que consiga entender que a liberdade não é uma entidade isolada emanando energia desordenada pelo universo, mas que só pode existir abraçada com a responsabilidade pelo tempo.

Quando olhar pra você, se um dia você olhar pra dentro, você possa saber exatamente como se ver: como um agricultor, um caçador ou coletor e esteja em paz com o que vir. Que possa compreender que existem fases para coletar do ambiente ao redor, fases para plantar nossos projetos, sonhos e desejos ou para caçar livremente e que essas fases devem ser vividas ao extremo.

Quando olhar para o mundo, se um dia você olhar por sobre os teus ombros como se saísse do corpo e, da estratosfera, olhasse para baixo, você possa compreender que tudo o que há é sagrado e existe por uma necessidade dinâmica natural ao ser humano. Que precisamos aprender sobre a harmonia que há entre a faixa de Gaza e um monastério nepalês, entre um tapa na cara e um pedido de desculpas, entre um assassino serial e um mártir. Que a vida se processa nessa espécie de equilíbrio dinâmico que é imprescindível para dar forma à plasticidade da natureza humana.

Quando você olhar para mim, se um dia você olhar pro lado (ou para trás...), você possa compreender que fiz o meu melhor, que a minha matéria está se cristalizando e vai quebrar, como a sua e a de seus filhos e netos, e você possa ter a grata certeza de que não me ama ou considera mais por isso, mas porque eu tive o prazer de te amar desde o dia em que te fiz. 

Conto e receita: ®Ҝ

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ars Amatoria




Os amigos em comum sempre falavam de um para o outro, mas Pedro estava namorando nas últimas férias e Bárbara, no carnaval, tinha resolvido fazer um mochilão pela América do Sul.

Todos diziam que precisavam se conhecer, os dois grandes “pegadores” da turma nunca tinham se visto pessoalmente, mas a fama os precedia e já haviam se adicionado no Orkut, trocado MSN e tudo o mais. Ocorre que Pedro conhecia a fama de Bárbara e ela à dele, de modo que se estabeleceu ali um desafio implícito. Os papos virtuais eram propositalmente vagos e ela sempre lançava um ar de “desafio” durante e no final das conversas. Pedro parecia um pouco mais distante, desligado diriam alguns.

Era março e nenhum dos dois tinha programado nada para uma quinta-feira baldia que, como todas as quintas-feiras, tem aquela noite recheada de um ar malicioso de despretensão calculada. Zé e Cláudia, o “casal grude” da turma, haviam ligado, respectivamente, para Pedro e Bárbara, chamando para irem ao cinema. Nenhum dos dois sabia que o outro iria. Era uma quinta-feira, despretenciosa.

Calça jeans e camisa cinza, tênis qualquer, saiu Pedro do curso noturno de francês e pegou o metrô para Botafogo. Revista de lado, vestido verde musgo e sandália grega preta, desceu Bárbara rápido até a garagem.

Zé esperava Pedro com ar um tanto cômico. Cláudia cutucava visivelmente o namorado eterno por baixo do braço.

- Que que cês tão aprontando, hein?
- Ih, cara, relaxa. A Cláudia hoje tá boba demais. Comprei teu ingresso porque eram cadeiras marcadas, senão já viu. Depois cê me paga.
- Tá, mas que vocês tão estranhos, tão. Que horas é o filme? – Disse pegando o bilhete e confirmando a resposta que esperava ouvir.
- Às dez e meia.
- Tem tempo. Bora na livraria?

Dentro da livraria Cláudia, uma moreninha de um metro e sessenta que vivia com os cabelos lisos e negros soltos não parava de passar a mão da testa à nuca, soltar os cabelos e rir. Pedro não se conteve:

- Na boa. Sério. Pára. Zé, eu sei que você é o maior cínico e não ia dar com a língua nos dentes nem a pau, mas a Claudinha tá denunciando legal. Qual é a parada?

Zé pensava em responder qualquer coisa quando virou para Pedro e, através da vitrine da livraria, viu Bárbara entrar no cinema, e ela estava linda. Fez qualquer menção que Pedro olhasse para trás e desviou os olhos para uma prateleira à frente, esticando a mão para pegar qualquer livro que nem havia visto.

Pedro olhou curioso para trás e viu Bárbara. Reconheceu de imediato. Estremeceu, porque através do vidro não só via Bárbara como via como estava vestido, ao mesmo tempo em que eles ficavam quase como que um casal, lado a lado, pelo reflexo causado pela luz interna da livraria. Talvez ela visse a mesma imagem do lado de fora, o fato é que Bárbara sorriu.

Ela entrou dominando o ambiente, era linda. Olhos verdes (ou azuis?) cabelo castanho claro preso meio alto como as bailarinas e umas sobrancelhas desenhadas, dando uma moldura entre o angelical e o luciférico. Pedro respirou fundo e enquanto pensava se falava qualquer coisa para Zé, se arrumava o cabelo, se andava em direção a ela, se a camisa estava amarrotada, a mulher do vestido verde musgo já estava parada de frente para ele, sorrindo.

- Pedro?
- Bárbara!
Ela riu. E que sorriso!
- Que divertido!
- Que armação dos dois ali atrás, isso sim!
- Com certeza!

Riram o tanto que a surpresa e o desejo de não parecerem ridículos um ao outro lhes permitiu. Bárbara cumprimentou o casal e conversaram os quatro por alguns minutos. Até que ela virou-se para Pedro com olhar malicioso e disse:

- Teu irmão me disse que você nunca deixou de conseguir a mulher que quis.
- Exagero dele.
- Bem, o Zé e a Claudinha confirmaram. A Aninha, o Paulo, a Carla, a Natasha... aliás – disse aumentando o tom da voz - me disseram até que você e a Natasha...
- Quer sentar lá fora? – Disse Pedro na clara noção de que deveria não só comandar o papo como afastar os dois amigos que depois fariam milhares de brincadeirinhas e repetiriam palavra por palavra o papo dos dois “sedutores” por meses.
- Claro, tô com sede. Você bebe o quê?

Andaram até uma mesa e Pedro deixou que Bárbara andasse ao seu lado, mas sempre um passo à frente, só passando à sua frente quando chegaram às cadeiras, onde fez questão de puxar a cadeira para ela.

- Obrigado. Muito cavalheiro você.
- Obrigado.
Pedro fez o possível para que ela não notasse que ele havia respirado fundo antes de sentar e resolveu soltar o ar lentamente depois de sentado. Sentou-se como se dominasse o ambiente. Parecera ter rompido completamente a atmosfera de surpresa e o mal-estar pela diferença que julgava não só entre as roupas, mas entre a beleza de ambos.
- Agora confesso que fico na dúvida. Não sei se agradeço aos dois ali por terem trazido você – confesso que os papinhos de todos já estavam me deixando curioso – ou se agradeço a você o fato de não ter se tornado uma miragem, daquelas que nunca poderão nos desencantar porque sempre serão miragens.
- Nossa, você fala bonito. – Disse rindo e arqueando as costas para trás como para desafiar ou simplesmente para olhar melhor os olhos castanho claros e os cabelos negros, lisos e meio jogados que emolduravam aquele rosto estranhamente inocente, dos lábios lisos e levemente mais grossos do que parecia pelas fotos no Orkut dele.
- Tem uma coisa que eu quero te perguntar.
- Claro!
- Não sei se devo agradecer aos dois por terem trazido você até aqui e acabarmos com o disse-me-disse do pessoal ou... se você deve agradecer a eles, e talvez a mim, por terem me trazido aqui para confirmar os elogios que você vive ganhando. Afinal, é o teu ego que cresce no processo. E agora? Agradeço eu ou você? Afinal de contas, se eu sou considerado um “sedutor” e se eu vou elogiar tua beleza, quem sabe até o teu vestido, porque ele realmente te cai muito bem, teu jeito de andar, tua voz... esses elogios podem ser úteis a você. É inevitável que eu te elogie para os outros. Não só porque você realmente é linda, mas principalmente porque, se eu não o fizer, corro o óbvio risco de parecer falsamente arrogante, infantil, talvez até invejoso. Sou obrigado a te fazer elogios públicos até para manter a minha imagem de cara maduro. E agora? Quem agradece a quem?

Bárbara franziu a testa. Parecia não ter alcançado de primeira as palavras de Pedro. E como o infeliz falava rápido, de improviso, e bem!
- Você me pegou. Obrigado por ter vindo. Obrigado antes da hora, pelos elogios que vai fazer sobre mim.
Ela ria e ficava desconcertada, até que pareceu jogar um anzol para o garçom que, ao primeiro relance daqueles olhos verdes (ou azuis?) apareceu na mesa e anotou um chá gelado para ela, um refrigerante para ele.

- Além dos elogios que você já ganhou, quero saber qual era o teu interesse em me conhecer. Fazer um duelo de sedução? Brincar daqueles jogos “te quero-te chuto” que os adolescentes fazem?
- Claro que não. Acho que a gente ficaria anos nisso e, por causa de nossos egos, como você mesmo disse, não íamos nunca nos render um ao outro.
- É, talvez. Interessante, você está se saindo mais inteligente do que eu esperava.
O garçom chegou com os pedidos de ambos. Serviu mais lentamente o de Bárbara que o de Pedro.
- Obrigado.
Brindaram.

- Meu interesse em te conhecer está no que teu irmão falou de você. Que nunca deixou de estar com a mulher que quis.
- Já te falei que é exagero de irmão mais novo. Vocês estudaram juntos na faculdade, sabe que o Thiago é meio exagerado por natureza.
- É, eu diria “empolgado”.
- Pois é. Então.
- O fato é que outras pessoas confirmaram e você também não nega.
- Acho que não faz sentido confirmar ou desmentir. Talvez seja mesmo verdade.
- É isso que eu quero! Aprender com você como faz isso. Não fica achando que por eu ser bonita todo mundo que eu quero cai aos meus pés.
- Eu não acho. Na verdade não faz sentido você achar que “todo mundo” que eu queira – porque que geralmente eu só quero uma pessoa de cada vez, riu – caia aos meus pés. A gente vai conquistando.
- Pois é. Você é um cara charmoso, alto, com um rosto bonito, mas não faz o estilo de todas as pessoas.
- Até porque isso é impossível, não acha? Pensa assim: existe uma arte para isso. Um artifício, uma artimanha, um truque, como você quiser. Não digo que seja uma teoria, porque é prático demais, não digo que seja uma prática, porque exige alguma reflexão e não seguir um modelo.
- Então me conta, como é que eu faço?
- Bem, primeiro você tem que rastrear sua “presa”. Não ri, é sério. Você que quer que eu transforme isso em teoria, tô tentando colocar em tópicos aqui. Acho que nunca fiz isso antes. O fato é que o melhor é que seja outra pessoa a entrar em contato com a “presa” antes de você. Que faça uns comerciais, como o pessoal fez entre a gente.
- Foi você que armou isso?
- Não. Eu teria feito diferente. Você vai ver. Enfim, depois disso o que você precisa é deixar-se ser quem é, afinal é da tua natureza o andar sedutor, o olhar enfeitiçado, a fluidez das palavras, tudo o que você normalmente faz. E fez hoje.
- Sério que não faço nada disso de propósito. Mas entendo que os caras vejam assim.
- Então, de qualquer forma você entende que não é pela força que se consegue ou mantém qualquer coração: benevolência e prazer são o que retém nossas “presas”. Procura não pedir mais do que o cara possa te dar, paga sempre na mesma moeda; o que uns chamam vingança nós podemos chamar de reciprocidade; assim os caras vão te querer mais, acho eu. Na hora de agradar, concede só o que eles querem ardentemente, nunca fora desse tempo. Às vezes é uma questão de “timming” mesmo. Percebe uma coisa: gosta de sushi?
- Adoro!
- Gosta de churrasco?
- Também!
- Se uma amiga sua te levar para um rodízio de sushi e passarem a tarde e a noite toda comendo e conversando e, às dez horas da noite, eu te ligasse chamando para um rodízio de churrasco, como você reagiria?
- Acho que eu iria... mas não ia querer comer. Se tivesse comido a tarde e noite toda, acho que nem iria. Marcaria com você outro dia, talvez.
- Servido a quem não tem apetite, qualquer coisa, mesmo um rodízio, que você disse que adora, não desperta nada. Talvez cansaço, talvez até nojo. Entende? Quando você está morrendo de fome, depois de uma noitada por exemplo, até o podrão da esquina, aquele cachorro quente que você vai levar uma semana pra digerir, é delicioso.
- Falar é fácil. Como é que eu faço pra deixar o cara com essa “fome” toda?
- Não oferecendo mais nada quando eles estiverem saciados. Nunca chamando uma segunda vez antes que eles terminem a “digestão” e a necessidade – porque é inevitável – tenha aparecido de novo. Depois, dá uma indiretas e some, deixa claro que é você quem comanda teus desejos, mas não se faça de “dona” mais que desentendida ou fugidia. De vez em quando dá uma evitada para a vontade deles chegar ao extremo.
- Legal, então porque você não me ajuda a tentar essa tua “técnica” pra chegar num cara do meu mestrado?
- Claro! Com todo o prazer, se eu tiver tempo.
- Está muito ocupado ultimamente?
- Se precisar de mim, me dá um toque. Toma meu telefone.
Puxou o guardanapo, tirou uma caneta do bolso e anotou. Entregou na mão dela, com os olhos fixos nos dela.
Bárbara empolgada, não resistiu:
- Por que a gente não sai amanhã? É sexta, tenho mais tempo livre.
- Pois é, não vai ser fácil assim de uma hora pra outra. Marquei de sair com uma amiga depois do curso, vamos na Lapa. Sábado talvez a gente saia de novo, não sei ainda. Mas domingo marquei de fazer uma trilha na Pedra bonita bem pela manhã e depois tenho que estudar porque tenho prova segunda logo de manhã.

Antes que Bárbara pudesse dizer qualquer coisa, Pedro se levantou com um polido e levemente distante “com licença”, pegou o celular no bolso e se afastou da mesa.

Não conseguiu ouvir nenhuma das palavras que Pedro trocou no telefone, mas sua postura dizia que tinha se esquecido de alguma coisa. Voltou correndo com o telefone ainda na orelha e, sem sentar na mesa, tapou o telefone com uma pressa estranha a um cara que tinha sido tão cordial até então e disse:
- Linda, tenho que ir, depois a gente se fala!
- Eu te ligo!
- Beijo!


Pedro passa rapidamente pelo corredor do cinema e despede-se com um sinal para Zé. Começa a rir no telefone depois de sair.
- Te falei, Thiago! Ela vai me ligar! Tá me devendo cinquentinha cara! Hahahahaha

Conto e Receita: ®Ҝ

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Caçador



Úrsula caminhava tensa pela sala de estar. Ao desligar o telefone uma inquietação qualquer lhe percorria os ombros até a ponta dos dedos. O que poderia querer Vânia - aquela senhora enigmática amiga de sua mãe há anos - lhe ligando às onze e quarenta da noite de um sábado para marcar um encontro com um homem desconhecido na sua casa para dali a alguns minutos? Por que quis confirmar logo de saída se Wagner estava viajando nesse final de semana?

Passeando pela sala viu seu reflexo num espelho estalando os dedos e percebeu que ficara o dia inteiro em casa arrumando papéis de Wagner, separando anotações e papeladas de notificações de condomínio, planejando ingredientes para um escondidinho de camarão no domingo caso ele voltasse a tempo pro jantar... seu cabelo secou preso, seu rosto não tinha qualquer maquiagem, correu ao banheiro antes que pudesse calcular a real dimensão emocional das linhas acinzentadas sob seus olhos.

Um banho rápido, um vestido prático sobre o corpo cansado, batom e um perfume leve. Decidiu deixar o cabelo secar solto dessa vez. Decidiu e, sem qualquer consciência, automaticamente arrumou o rabo-de-cavalo antes de atender à porta.

Vânia vinha como sempre, sorridente e esquiva. Escorregava o olhar dos olhos de Úrsula enquanto trazia ao seu lado um sexagenário de quase dois metros com um blazer grafite já fora de moda sobre uma camisa verde musgo.

- Oi Úrsula, esse é o Dr. Ramiro Ruyz, veio de Granada especialmente para ver o seu caso.
A mulher fitou a senhora com algo entre uma inquietação pela intromissão em sua vida e a curiosidade avassaladora diante daquela situação bizarra. Por alguns segundos pareceu ao Dr. e à senhora virem a batalha interna de Úrsula ser ganha, momentaneamente, pela curiosidade:
- Como assim "meu caso"? Acho que eu deveria saber de qualquer "caso", certo? Acho que estou bem de saúde e admito que só recebia a senhora por consideração à amizade que sempre teve com minha mãe, mas dado o adiantado da hora gostaria que vocês fossem um pouco mais claros, se possível.
Estranhou que o Dr. ficasse parado ao pé da porta como se uma parede invisível o impedisse de entrar. Talvez alguma inquietação em estar na casa de uma mulher casada na ausência do marido, algumas impressões ligeiras e simpatizantes passaram pela cabeça atabalhoada de Úrsula até que ela quase sem querer dissesse:

- Entre, por favor. Fique à vontade.


Vânia assentiu com a cabeça, afundou as costas no sofá da sala e em alguns segundos o dividia com o estranho doutor.
- Deixa essa polidez e distância pra depois, menina. Não temos muito tempo. Pompa e circunstância são luxos desnecessários. Gostaria que ouvisse com atenção ao Dr. Ramiro, sei que a situação pode lhe parecer estranha e... depois, se achar que deve, sairemos rápido pela mesma porta ali à direita e nunca mais te incomodarei com essas idéias. Pode ser?

Úrsula se recostou na poltrona expulsando o ar do peito em tom de consentimento.
- Querem água, chá, biscoitos?

A voz pedregosa e grave do Dr. Ramiro quase explodiu ocupando cada milímetro da sala:
- Creo que el tiempo para una taza de té es el tiempo necesario, gracias.
Úrsula se levantou e foi até a cozinha. Deixou a água aquecendo no bule, pegou uma tigela, abriu um pacote de biscoitos que só comprava mesmo para o caso de visitas e voltou ansiosa para a sala. Sentou com pressa e encarou com curiosidade aquele senhor alto de voz grave e modos que só lembrava de haver visto antes em seu avô.

- E, na opinião do Sr...

- Doutor, minha filha. Doutor. - Interrompe a “Tia” Vânia com as mãos esfregando os joelhos.

- Sim, “Dr” Ramirez, certo?

- No, Ramiro. – Disse o distinto senhor sem tirar os olhos da tigela de onde havia tirado já o segundo biscoito recheado. – Nossos idiomas são parecidos, mas como gostaria que se reportasse a mim no meu, caso eu estivesse no seu país, falarei com você no seu, uma vez que cá estou. Perdoe qualquer sotaque português, estudei em Coimbra. Vícios de linguagem são os piores.

- Sem problemas, o senhor é doutor em quê, exatamente?

Dr. Ramiro encarou pela primeira vez nossa protagonista, seus olhos inspiraram uma espécie de vivacidade que superava sua idade e aspecto geral: - Psicoquiroptologia prática.

- Como?

- Psicoquiroptologia. Psico vem de psiqué, termo grego para....

- Desculpe, essa parte eu compreendi, mas o outro termo...

- Quiroptologia?

- Isso. Quiroprático é uma espécie de massagista ou um especialista que cuida da coluna sem ser estritamente um médico, isso é o mais próximo que chego do termo que o Dr. disse.

- Se essa é sua preocupação, posso lhe assegurar que sou médico e formado. Mas minha área mesmo é essa cujo nome estranhastes. Quiróptero é o nome científico dos morcegos. Lembra-te dos pterodáctilos, cujas falanges dos dedos tinham membranas formando juntas que supunha-se que usavam como asas? Bem, os morcegos tem o mesmo fundamento em suas asas e “quiro” é o sufixo para “mãos”. Quiróptero seria “mãos com asas” ou algo do tipo. Enfim, vim aqui saber do seu marido.

Úrsula agarrou o encosto da cadeira com a mão direita e tentou disfarçar chamando atenção com movimentos aleatórios com a esquerda enquanto tomava fôlego. Por algum motivo aquilo que obviamente não fazia sentido perfurava seu estômago, incomodava demais. Decidiu manter aquela “tia” maluca e seu amigo “Dr.” até descobrir porque tudo aquilo a incomodava tanto e logo na boca do estômago.

- Desculpe, como?

Dr. Ramiro se encostou no sofá cruzando os dedos nas mãos sobre as pernas e fixando o olhar de maneira cordial embora levemente inquisidora para Úrsula. Passou a língua pelos lábios e depois de observar mais uma vez os biscoitos (algo dizia a Úrsula que ele observava através dos biscoitos, do prato, da mesinha de centro, talvez até do chão) disse:

- Gostaria de tomar a liberdade de fazer-lhe três perguntas depois das quais a senhora me dirá se há razão para eu estar aqui ou não. Caso não haja obviamente irei embora imediatamente.

- O senhor já conseguiu isso antes.

- Sim, mas quero primeiro ter o seu consentimento para perguntar e quero que saiba que são apenas três perguntas.

- Tudo bem. O senhor já tem minha atenção, minha curiosidade... até meus biscoitos e o chá que daqui a pouco vou pegar.

- Ótimo. Foi a senhora que convidou seu marido a vir morar em sua casa quando se conheceram?

- Sim, mas...

O olhar do Dr. Ramiro se fixou no pescoço e depois na boca de Úrsula. Ela sentiu um impulso imediato de parar de falar e respondeu ao olhar do espanhol com um desafio levantando as pálpebras inferiores.

- Certo – disse o Dr. com as mãos no biscoito e os olhos nos olhos de Úrsula – Certo. A senhora pensa em ter filhos?

A anfitriã cruzou os braços como se um calafrio percorresse seu corpo ao ouvir aquela pergunta. Levantou-se e foi pegar o bule que já assobiava a algum tempo na cozinha.

- Não estou entendendo onde suas perguntas querem chegar. – disse de costas para as visitas.

- Sra. Úrsula, por favor. São apenas três perguntas. Não vamos parar na segunda.

- Estou recebendo o senhor – e a voz veio chegando em passos densos sobre o assoalho de taco envernizado com o bule cheio de água fervente e umas xícaras quase dançantes sobre a bandeja de fórmica imitando madeira – por consideração à senhora do seu lado. Que tipo de pergunta é essa?

- O tipo de pergunta que me parece correta dada a irritação com que a senhora a recebeu. – Por alguns instantes um clima de apreensão rondou a sala e um adolescente irônico poderia ouvir os grilos na janela, mas não existiam adolescentes nessa cena, ou ironias.

- Qual a razão para essa pergunta? – Disse Úrsula sem deixar a bandeja ou o bule sobre a mesa de centro.

Dr. Ramiro levantou-se do sofá rapidamente como se desse um bote sobre a mão da anfitriã e com olhos melífluos e nublados, tomou a bandeja e o bule e de um único movimento os colocou na mesa, dizendo:

- Dessa forma queimará os dedos.

Tudo aquilo pareceu, à aterrorizada Úrsula - que só agora tomava consciência da altura e largura dos ombros daquele senhor – rápido, energético e limpo demais, como um movimento marcial treinado à exaustão e perfeição, algo totalmente surreal a um senhor daquela idade.

Ainda em pé, Dr. Ramiro permaneceu fitando a mão direita de Úrsula.

- Melhor colocar em água fria. Corrente.

Mais um constrangedor silêncio invadiu a sala e “tia” Vânia levantou em direção à cozinha para em seguida voltar com um pano de prato envolto em pedras de gelo.

- Você estava se queimando, minha filha. Não percebeu?

Úrsula desprendeu os olhos dos do Dr. Ramiro, que já estava servindo os três chás de maçã com pitadas de canela, e olhou sua mão direita. Vermelha.

- Vejo que minha presença talvez lhe cause repulsa ou desagrado, mas vim a fazer três perguntas e me vejo forçado a fazer a terceira antes de ir-me embora. Ah, fique tranqüila, não sou eu quem cuida da resolução dos casos. Sou responsável pelo que a senhora chamaria de “medicina diagnóstica”. Bem, a senhora tem 27 anos, é casada há 5 e conhece seu marido há 7, tenho certeza de que conhece a família dele, cuja mãe quase não fala, provavelmente tem uma expressão facial inócua, vacilando, a maior parte do tempo entre parecer desmaiar ou chorar, coisas que os que estão ao redor já não se espantam de que não aconteçam, como se uma força qualquer a mantivesse erguida, eterna, para servir. Seu sogro é um homem falastrão, bonachão, sedutor e bom ouvinte, como seu marido. A irmã de seu marido, como suponho que exista, é uma moça quieta, soturna e de aparência decadente, aparenta ter dez anos a mais que ele, quando na verdade é o oposto que se verifica na certidão de nascimento. Desde que convidou seu marido a entrar nessa casa, há sete anos, cada vez menos seus projetos e sonhos foram comentados à mesa, na cama, pela manhã, antes ou depois do trabalho. Pelas teias de aranha próximas ao teto da entrada de sua casa posso imaginar que seu interesse pelo comportamento dos insetos aumentou na mesma medida em que desaparecia seu asco por eles até o ponto em que hoje é capaz de olhar fixamente para uma barata, aranha ou ratazana por alguns minutos e até mesmo tentar descobrir como esses seres sobrevivem e se reproduzem. Está projetando a ausência de sentido atual da sua vida na possibilidade de que haja algum sentido ou mesmo algum sentido infantil de harmonia na vida entomórfica. Vejo poeira uniforme na frente dos livros na estante, sinal de que não há manuseio dos livros. Seus estudos pararam, qualquer produção secou, seus devaneios noturnos, planos de carreira, tudo foi desfalecendo semana após semana, mês a mês, ano a ano até chegarmos ao dia de hoje em que provavelmente seu olhar tenso e crispado sobre mim diga que sei mais do que aparento, mas principalmente que sei mais do que deveria saber e, acima de tudo, que eu não deveria ter comentado o fato de que está pensando em desistir até mesmo de ser mãe. Certo?

Dr. Ramiro deu um último gole no chá e colocou dois biscoitos no bolso do paletó ao se levantar e caminhar, lentamente, em direção à porta.

- Não há duvida. Seu marido é um grande quiróptero, um vampiro emocional, psíquico e físico. Acredito que esteja a poucas semanas, talvez alguns dias, de acabar com a sua vida. Não pense em assumir a posição de vítima; de tudo o que é dito sobre o folclore dessas criaturas, uma coisa é certa: Só entram quando convidados.

Deixou um cartão de visitas negro sobre a mesa ao lado da porta:

- Como disse antes, não sou eu quem cuida da resolução, eu faço apenas o diagnóstico. Sinta-se livre para decidir nos ligar.

“Tia” Vânia estava atônita. Com o afastamento do Dr. Ramiro em direção à porta foi-se aproximando aquela confusa sensação de que pouquíssimo sabia do tal “Dr.” além do fato de que se conheceram naquela tarde, num café literário, ou numa estufa de flores? Pelo menos tinha a certeza de que fora em Copacabana... ou seria Botafogo, talvez Jardim Botânico?

Em estado de choque, olhando através da xícara, através da bandeja, da mesa, do taco, do chão, penetrando o âmago escaldante da terra em busca de si mesma, Úrsula explodiu aquelas palavras embaçadas de lágrimas:

- Como? Como você pode saber isso?

Antes que a porta se fechasse sobre as duas figuras atônitas, as palavras nítidas e distantes:

- Ora, minha querida, os semelhantes se reconhecem...

Conto e Receita: ®Ҝ

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?