quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cacos

Não, ele estava ali, sabe? Na beira do precipício. Espera, deixa eu contar do início. Era um escritório assim como o seu, mas havia um armário diferente na parede, um armário que eu nunca havia notado. Simplesmente ele estava lá, na verdade tenho a impressão meio nítida de que era só uma maçaneta suspensa no ar, como se desenhada na parede, aí eu simplesmente coloquei a mão nela. Alguma coisa me puxou, minha mão, sabe? Então, a maçaneta estava fria, como se ninguém tocasse nela há muito tempo e começou a esquentar muito rápido quando eu toquei nela. Como eu te disse, estava num escritório - engraçado como ele parecia com o seu - e sabia que ele era meu. Não sei ao certo porque, mas sentia que aquele espaço pertencia a mim, como se fosse uma extensão de mim mesmo por aquelas paredes azuis. Quando coloquei a mão na maçaneta ela esquentou, lembra? É. Eu tirei a mão. Mas percebi que enquanto ela esquentava formava uma espécie de contorno, uma silhueta de porta na parede. Aquilo tudo era muito perceptivo, bem claro, óbvio, embora eu soubesse que não estava vendo todo o contorno simultaneamente, porque estava perto demais da porta pra ver, mas sabia que ele se formava inteiro, assim que eu colocava a mão na maçaneta. Testei ela de novo e estava fria, esquentava de novo. Abri de uma só vez e entrei num cômodo amadeirado enorme, recheado de livros e gavetas e armários. Como se houvesse uma outra biblioteca dentro daquele escritório, e haviam alguns andares para cima e uma escadinha, à esquerda, que dava pra baixo. Era enorme! Posso relembrar minha alegria quando percebi que havia ali mais livros do que eu jamais havia sonhado em ler e aquilo tudo atiçava minha curiosidade, mas algo me dizia que eu voltaria ali e não era necessário começar a olhar tudo - todo aquele inacreditável presente - de uma hora para outra, porque eu tinha pego a chave da porta, assim que a fechei atrás de mim. Me aproximei de uma mesa, uma grande mesa de centro, e era engraçado porque ela exalava o perfume que sinto quando escrevo, sabe? Talvez o perfume da minha mente, criatividade. Procurei não pensar naquilo enquanto via uma carta endereçada a mim sobre os papéis avulsos ali. Estava endereçada a mim, mas não tinha remetente identificado, só um símbolo de um sol eclipsado por uma lua na parte da frente, mas o tal eclipse só era visto contra a luz, num determinado ângulo que não percebi de primeira. Enfim, abri. Senti-me ridículo por abrir a carta e ver apenas uma indicação vaga da planta daquele cômodo, com uma indicação forte, por entre as linhas negras de nanquim, apontando uma varanda em tinta vermelha. olhei para trás para perceber que a tal varanda ficava ali atrás de mim, de onde eu estava sentado, logo acima do lance de escadas que me levava para cima, no segundo andar da casa, o andar recheado de livros, tanto que não se via a cor da parede. Subi as escadas e estava chegando à varanda quando uma luz qualquer me irritou os olhos. Era o sol e na verdade, o fim da varanda não era bem uma varanda, mas uma entrada ao nível do solo, e eu percebi que o tal cômodo estava enterrado dentro da terra, foi quando vi que a planície à minha frente se elevava até formar uma colina, onde uma figura muito bizarra praticava alguma dança sinistra. É claro que aquilo tudo me deixava cada vez mais curioso e desnorteado, então fui andando em direção à tal figura, cuja silhueta percebia muito vagamente, porque exatamente atrás dela ficava o sol, imponente e acho que estranhamente vivo. Não sei explicar a idéia de um sol vivo, mas ele reagia, respondia ao longo dos meus passos e depois a coisa foi ficando mais intensa. fui percebendo que, à medida que me aproximava da tal figura dançante o sol ficava mais forte, quente, agressivo. Quando comecei a suar demais, sentei. Coisa entre cinco e dez metros da tal figura. Ele parecia não notar minha aproximação. Foi quando percebi que, à frente dele, exatamente na linha onde ele dançava e fazia malabarismos e saltos, estava um abismo. Quem me mostrou o abismo foi o vento, o vento que subia e trazia, às vezes tão forte que, sentado no chão, tinha que agarrar a grama pra não me sentir jogado pra trás. A figura fazia malabarismos sobre um abismo e eu, sem ter o que fazer ali, comecei a falar com ela. - Oi? Porque você está fazendo malabarismos no abismo? Ele deu uma gargalhada baixinha, e percebi que tinha uma barba longa nessa hora, foi quando me respondeu: - E não estamos todos? Fiquei perplexo porque sua voz era uma mistura estranha da minha, da minha mãe, meu pai, uma professora do primário, um professor da faculdade, um senhor com quem conversava na adolescência, uma mulher que me ensinou religião e mais um monte de outros que não distingüia. De qualquer forma segui ali admirando seu equilíbrio, sobre o vento do abismo. Estranho que quando ele parecia se desequilibrar o vento aumentava e jogava ele para cima de volta. De alguma forma ele se movia livre porque sentia que não iria cair. Tentei de novo me aproximar, dessa vez mais rápido e o sol arrebentou em luzes multicolores que me queimaram a pele e me cegaram. Confuso, sentei de novo. Voltei a onde estava antes e até acertei a mão sobre onde ela estava, marcada na grama. Esperei minha visão voltar ao normal e perguntei: - Quem é você? À medida que as palavras iam saindo de minha boca ele plantou bananeira com uma mão só bem na beira do abismo, de costas para mim, já não tinha a tal barba longa. Nessa posição parou, imóvel, e disse: - Sou o nunca-você! Aquela voz dessa vez havia saído como o bater de asas de mil pássaros e aquilo me atordoou demais. Foi quando ele disse: - Não gostou da minha primeira voz, troquei. E não, eu não consigo falar baixo, não a essa distância. Não prefere conversar da varanda? Aquela última frase havia saído num tom de desafio, de cinismo, meio como uma brincadeira. Foi quando alguma coisa entrou no meu dedo, cortando. Olhei para baixo e vi um caco, um caco qualquer que entrou na dobra do meu dedo indicador. Tirei. O sangue passou quente para a grama, que se pintou de um vinho brilhoso. Fui olhar o caco, era um pedaço de uma gola de camisa que usei no dia que levei a Talita no colégio pela primeira vez. Do lado dele tinham outros cacos e outros, por toda a grama vinho um monte de cacos enormes, pequenos, minúsculos, como grãos de areia ou lajes e telhas. Foi quando me irritaram todos aqueles pedaços amontoados. Alguns tinham pedaços, imagens de mim, um pedaço do meu calcanhar quando caí de bicicleta, meu polegar e indicador assinando um documento qualquer, meu umbigo num jogo de futebol, nunca me via inteiro, muitos cacos não tinham sequer um pedaço de mim, mas de alguma forma não eram estranhos de todo. Não sei explicar. Tinha gente que nunca vi em alguns pedaços, um sorriso de um velho oriental, um olhar de uma criança negra, cabelos de índios. Foi quando olhei para a frente, a planície que virava abismo estava recoberta desses cacos, milhões desses cacos a ponto de me enlouquecer ali, e eram todos cortantes. Foi quando pensei no malabarista, na sombra, olhei diretamente para ele - o mais que dava, claro - e vi seu corpo todo ensanguentado, enquanto ele fazia malabarismos sobre os cacos no abismo. Ele não parecia se importar com nada daquilo e, a cada segundo dava saltos mais altos, saltos mortais, carpados, saltos impossíveis à beira do abismo. Perguntei: - Você está sangrando, pára! Levantei as mãos recheadas de cacos, sangue, disse: - O que é isso? A figura parou, cravando os pés violentamente no chão, de frente para o abismo, costas para mim. Tomou distância do abismo, andando de costas na minha direção. Respirei aliviado, tentava ver seu rosto, quando sua sombra cobriu todo o meu corpo sentado no chão ele correu para o abismo e saltou: - É vida!

Conto e Receita: Renato Kress

domingo, 25 de abril de 2010

Carta a um sobrinho




Oi Henrique,

Aqui é o seu tio Renato, tudo bem? Espero que sim. Tenho visto suas fotos das apresentações do teatro e estou vendo que terei que ligar do Ziembinsky e perguntar dos elencos das peças para poder ver algo seu. Para não dizer que não tem meus telefones, segue junto com essa carta um cartão com todos eles, inclusive meu endereço, caso me dê a honra de responder a essa singela cartinha.

Me disseram que anda interessado em mitos. Provavelmente por mitologia grega, que é o caminho natural quando a gente começa a se interessar pelo assunto. Eu resolvi te escrever um pouco sobre isso e espero que goste do que vai ler nas próximas páginas. Vou tentar descrever uma história que contei para alunos meus num curso em que eu usei mitologia grega como base. Espero que você goste.

O Fio do destino

De Zeus a Helena

Vou te contar uma historinha diferente, algo que eu sei que não vai encontrar nos livros que eu pretendo te dar em breve. Vamos ver... que tal saber como Zeus gerou a maior guerra do mundo grego para poder se livrar de um “probleminha” familiar dele?

Na verdade tudo começa no Kaos (ou Cáos) uma divindade bem lá de trás, antes mesmo do tempo e até mesmo do espaço existirem. Kaos é uma bagunça só. Na verdade ele é tudo misturado e sem forma, como as suas roupas no cesto antes de lavar, só que pior, como se elas estivessem costuradas umas nas outras e misturadas com as dos seus irmãos e misturadas com perfumes, jogos de Playstation, cabelo velho, perna de barata, pedacinho de feijão no dente e tudo o mais que você puder imaginar.

Acontece que na mitologia Kaos era isso. Era tudo misturado, sem diferença, sem distinção, sem sentido (mais ou menos como turistas japoneses ou o noticiário da TV). Um dia Kaos se sentiu isolado, carente e sozinho (dizem que ele estava tentando coçar as próprias costas, mas, na bagunça, não achava nem o coçador nem a própria mão e quando achou uma mão não tinha bem certeza de que era sua) e, então, pra se livrar da coceira, juntou toda a matéria num único ponto, que chamou de Gaia.

Gaia era toda a matéria condensada num pontinho que se separou de Kaos. Ela precisava se separar para coçar as costas dele, lembra? Mas à medida que ela ia coçando, ele - que era tudo e era bagunça - foi se arrumando em Gaia e não-Gaia, em bagunça e não-bagunça, até que desapareceu.

Gaia, que passou três eternidades, dois infinitos e meio “para sempre” coçando as costas de Kaos até que ele desaparecesse, finalmente respirou aliviada. Do suspiro profundo saído dos pulmões primordiais de Gaia saiu Úrano (não, não é urina, é sopro e se chamava Úrano, com acento no “u”) e Úrano se espreguiçou por todo o espaço possível, criando, junto com Gaia, o que os antigos contadores dessa história chamavam de Kosmos (“ordem”). Antes com Kaos era uma bagunça generalizada: mosquitos comiam dinossauros que tinham patas de caranguejo enquanto hipopótamos azuis dançavam com igrejas cantantes.

Úrano e Gaia se olharam e se acharam assim... engraçados. Ela toda feita de matéria, toda terra, toda árvore, metal e pedra; Ele todo feito de ar, sopro, vento, idéias. Então casaram e tiveram muitos e muitos filhos, todos deuses. Mas com receio de que algum filho pudesse destroná-lo de seu lugar como rei dos deuses, Úrano não deixava que Gaia desse à luz os deuses que se avolumavam em sua barriga. A deusa terra foi ficando cada vez mais inchada, roliça, rotunda, parecia uma bola de praia.

Um dia, cheia de dores, ela disse aos seus filhos – todos cada vez mais amontoados e sufocados dentro de seu ventre:

- Aaaaah!!! Essa agonia está me matando! Minha pele está esgarçada, meu corpo inteiro dói e meu umbigo parece um vulcão! Aquele entre vocês que conseguir me livrar da tirania de seu pai Úrano, será o novo rei dos deuses. Qual dentre vocês vai me livrar dessa dor?

Dentro de Gaia haviam três gerações de divindades que ouviam seu discurso: os três Cíclopes - Arges, Estérope e Brontes -, mestres do raio, do trovão e das tempestades, os três Hecatônquiros – Coto Briareu e Gias -, os maiores de todos, gigantescas criaturas com cem braços e cem olhos e, por último, a geração dos doze Titãs, seis homens – Oceano, Ceos, Crio, Hipérion, Jápeto e Crono – e seis mulheres – Téia, Réia, Febe, Mnemosina e Tétis .

Não se sabe ao certo se o mais novo entre as três gerações de divindades dentro de Gaia foi o mais ávido pelo poder ou se simplesmente não teve forças para se esconder atrás dos irmãos quando todos, amedrontados, se acotovelaram para dentro de Gaia, com medo de uma punição do Pai todo-poderoso Úrano, Senhor dos Céus. O fato foi que Gaia entendeu que seu caçula Crono, deus do tempo, era aquele destinado a vingar a mãe pela crueldade do pai, que não deixava que ele e seus irmãos nascessem. A mãe terra deu então a seu filho vingador uma foice feita do “leite do seu seio”, na verdade uma foice criada pelo metal líquido que corre nas entranhas do planeta, e, com essa foice, Cronos foi instruído a subir por uma nuvem até o espaço em que poderia avistar alguma parte de seu pai.

Não demorou muito para que Úrano viesse, como sempre, visitar Gaia e esta, sem muita opção mas tramando em segredo, deixou que ele entrasse. Assim que Úrano chegou, Crono se adiantou e, com a foice, castrou seu pai que, num urro grotesco que se confundiu com as vibrações do universo por milhares de anos, ecoou avassalador ensurdecendo toda a realidade por aquele momento. Ao se afastar, sangrando, Úrano lançou a seguinte maldição:

- Serás destronado e destruído pelo mais jovem entre os seus!

Crono sabia muito bem que, a partir de agora, deveria temer, acima de tudo, seus filhos. Sendo assim libertou todos os seus irmãos titãs, menos aos Hecatônquiros e aos Ciclopes, irmãos mais velhos que ele sempre temeu. Os titãs casaram entre si e tiveram várias outras divindades, sobrinhos de Cronos que casou com Réia, uma de suas irmãs.

Por causa da maldição de seu pai Úrano, Cronos temia muito que qualquer filho seu viesse a crescer para lhe derrotar ou tomar seu lugar. Então pedia a sua esposa Réia que, assim que nascesse qualquer um de seus filhos, o entregasse para que ele pudesse... criar a criança. Na verdade ele engolia os bebês e dizia para Réia que “em breve” ela os veria de novo. Depois de um tempo, claro, a deusa regente do mundo começou a estranhar o sumiço dos bebês e a criar um ressentimento muito grande do poderoso rei dos deuses, seu marido.

Depois de um tempo ela engravidou de seu sexto filho, Zeus. Cansada de dar seus filhos para que Crono desaparecesse com eles, escondeu o pequeno Zeus numa caverna na ilha de Creta e deu a Crono uma pedra enrolada com línguas de animais para que ele as comesse. Crono não estranhou e engoliu rapidamente o que achava que era o pequeno Zeus.

Zeus cresceu numa caverna na Ilha de Creta e foi criado por sua avó Gaia e por uma cabra chamada Amaltéia, mas essa é uma outra história que contarei a você um outro dia. O fato é que Zeus cresceu o suficiente para batalhar com seu pai Crono, conseguiu fazer com que ele vomitasse seus irmãos engolidos e, junto com eles, libertou os Hecatônquiros e os Ciclopes unindo forças contra seu pai e seus tios, da geração dos Titãs. Foi uma batalha horrível, que modificou todo o solo do mundo, criou e devastou montanhas, desviou cursos de rios e criou explosões oceânicas enquanto o céu bradava. Os titãs sobre o monte Ida e os olímpicos receberam seus nomes justamente por estarem localizados sobre o monte Olimpo, bem no centro da Grécia. Sobre essa batalha podemos conversar mais à frente, o fato é que os Olímpicos venceram e Zeus, cumprindo a profecia de seu avô Úrano, destronou seu pai Crono e tornou-se o novo rei dos deuses.

Muito tempo se passou e Zeus, estabilizado no poder e depois de ter dividido o universo entre três camadas sobre as quais ele reinava supremo, desentendeu-se com seu primo Prometeu, por este ter roubado o fogo sagrado dos deuses e levado para os homens, para que eles se abrigassem no frio, cozinhassem e pudessem dormir de noite sem medo de serem atacados por animais selvagens. Zeus havia tirado o fogo dos homens por medo de que eles adquirissem poder suficiente um dia para destroná-lo. Ao contrário de seu avô e de seu pai, Zeus não engolia seus filhos, mas sempre fez questão de ser um ótimo pai, amigo e companheiro de seus filhos, para que nenhum deles quisesse se virar contra ele. De qualquer forma Zeus prendeu seu primo Prometeu no monte Cáucaso onde ele ficou de cabeça para baixo tendo seu fígado comido eternamente por uma águia. O fígado de Prometeu se regenerava toda noite e, assim, ele ficaria sofrendo para todo o sempre, não fosse o fato de Prometeu ser um deus que conhecia a “Mântica”, a arte da adivinhação, e, por isso, sabia de um segredo que muito importava ao rei dos deuses: Como e quando ele iria ser deposto!

Zeus havia jurado a Prometeu que ele nunca se veria livre da punição por ter dado o fogo aos homens, que estaria “ligado ao monte Cáucaso para sempre”. Então não poderia libertá-lo e, sem essa liberdade, seu primo também não diria quem, como e principalmente quando Zeus seria destronado. O deus dos deuses estava completamente encurralado por sua própria palavra. Não poderia libertar Prometeu porque a palavra de Zeus não volta atrás, e sem voltar atrás não poderia saber como impedir que um filho seu pudesse tomar seu lugar, como fizeram seu pai e ele mesmo. Chamou Hermes, um de seus filhos e deus dos mercadores, da comunicação e dos ladrões para persuadir Prometeu.

Seguiu-se uma terrível discussão em que Prometeu, usando da sua polymetes (astúcia, inteligência ligada à prudência) reverte todos os argumentos de Hermes lhe mostrando que, por ser patrono dos mercadores e ladrão desde o nascimento, o deus de pés alados não poderia compreender que Prometeu não estaria interessado em ‘ganhar’ qualquer coisa com aquela discussão e nem Hermes teria qualquer autoridade para acusá-lo de ladrão, pois como Prometeu “roubou” o fogo de Zeus para dá-lo aos humanos, Hermes, assim que nasceu, roubou os bois de seu irmão Apolo. Hermes voltou a Zeus de mãos abanando, apenas para ouvir o trovão na voz de seu pai, expulsando ele para longe, irritado com a falta de habilidade do deus da comunicação e da lábia.

Muito tempo depois Hércules libertou Prometeu do monte Cáucaso e, para não desobedecer a seu pai Zeus, deixou que uma das correntes que prendiam ao poderoso deus pelos pés ficasse presa, quebrando apenas uma parte da montanha. Dessa forma Prometeu ficou para sempre preso a um pedaço do monte, e, liberto do castigo de Zeus, disse a Hércules que Tétis – uma deusa do mar, filha do Titã Oceano – estava fadada a ter um filho cem vezes mais poderoso que o pai e este, com certeza, poderia destroná-lo e matá-lo. A essa época Zeus estava cortejando Tétis quando foi avisado por Hércules. Zeus então desistiu imediatamente de estar com ela e obrigou a deusa do mar a casar com um mortal que, mesmo que fosse cem vezes mais poderoso, nunca chegaria aos pés de Zeus. Porque mesmo que Tétis viesse a se casar com outro deus, seu filho, cem vezes mais forte que o próprio pai, ainda poderia dar problemas no Olimpo.

Zeus arranjou para que Tétis casasse com Peleu, um rei grego, e desse casamento nasceu Aquiles, o maior dos heróis da Grécia. Cem vezes melhor que seu pai, mais forte, mais rápido, mais habilidoso do que qualquer ser humano e melhor do que qualquer um dos Heróis gregos de sua época, Aquiles foi o maior herói grego de seu tempo.

Ao casamento de Tétis e Peleu foram convidadas todas as divindades do Olimpo, menos Éris, a deusa da discórdia. Afinal, quem quer a discórdia numa festa de casamento? Bem, no dia da festa Atena - deusa da inteligência, justiça e estratégia – Hera – esposa de Zeus, deusa do poder, da família e do casamento – e Afrodite – deusa do amor, da sensualidade e da sedução – estavam conversando juntas. Éris jogou entre elas uma maçã de ouro em que estava escrito “para a mais bela”. As três deusas correram para Zeus, para que ele decidisse a quem pertencia a maçã, qual delas era a mais bela. Zeus, esperto que é, não poderia escolher entre duas filhas e sua esposa e disse a elas que o príncipe Páris, de Tróia, era o mais justo entre os homens e ele poderia facilmente decidir a quem pertencia a maçã. Mesmo que Zeus já soubesse que isso não ia dar em boa coisa porque Páris não era nada justo, e, para falar a verdade, havia feito tantas bobagens como príncipe em Tróia que seu pai Príamo havia deixado ele de castigo cuidando dos rebanhos do reino bem longe do palácio. As três deuses tentaram Páris, cada uma a seu modo, subornando-o. Hera ofereceu poder e o reinado sobre o mundo, Atena ofereceu a vitória em todas as batalhas que travasse, a glória e a sabedoria e, por último, Afrodite ofereceu a Páris o amor da mais bela entre as mulheres, Helena.

Claro que Afrodite esqueceu de dizer a Páris que Helena era casada com Menelau, rei da Lacedemônia, território que depois mudou o nome para Esparta, assim como Zeus esqueceu de dizer às três que isso tudo ia dar um problema muito maior, uma guerra tão grande que poucos Heróis gregos sairiam vivos. Mas tudo bem, porque Prometeu esqueceu de dizer também que, depois dessa guerra, a crença na existência de Zeus e de todos os outros deuses seria cada vez menor, até desaparecer por completo... mas essas são outras histórias, para outras cartas.

Conto e Receita: Renato Kress

terça-feira, 30 de março de 2010

Malik, Porta do Inferno



Não se sabia de pai. A mãe, Inácia, era uma negra carrancuda cuja mãe a forçou a andar antes da hora – o que lhe custou os joelhos arqueados e o andar torto que vagueava a vida. Inácia não era de falar. Exceto pela mão estendida nas subidas de escadas – suplício diário – pouco incomodava vizinhos. Foi surpresa geral que a barriga, depois de tempo, era de homem e não de gordura mesmo. Dizem que foi coisa do patrão, um muçulmano pardo de barba branca, barriga proeminente e dedinhos ágeis.

Malik – nome que o garoto recebeu do padrinho, seu Amin – sempre foi um moleque diferente. Herdou da mãe o silêncio. Toda a gente estranhava o olhar distante e sério daquele moleque grande. Com quatorze anos as gorduras foram se arrumando pra cima e com dezesseis já baixava cabeça pra entrar em casa. Isso bastou pra calar o ânimo da vizinhança, que nem Inácia era alta, nem seu Amin. Começaram a acreditar no que Inácia havia dito para Penha, amiga de costura nos domingos, quando soube do menino: Tinha sonhado com um anjo, seu filho tinha uma missão a cumprir.

Seu Amin conseguiu que Malik fosse jogar basquete. O professor sentiu pressionar a última vértebra do pescoço enquanto subia o queixo para falar com o rapaz. Aquela vértebra deu a Malik uma bolsa de estudos. Acontece que o talento não vem com a genética. Malik era lento, ficava ali, no garrafão, pesado, esperando um passe ou, na volta, ficava na própria cesta, tirando as bolas do adversário. Por um tempo funcionou. Logo foi neutralizado pelos adversários. Cansou a torcida, a vértebra do técnico e, com o tempo, seu Amin.

Malik começou a fazer entregas na comunidade para uma loja de roupas, para as costureiras associadas, para as lavadeiras. Não era simpático nem antipático. Por toda extensão abrupta do seu corpo mecânico e enferrujado, só se via vida se, com sorte, alguém alcançasse seus olhos negros a mais de dois metros de altura. Esses eram vivos, detalhistas, analíticos.

Um dia um conhecido – Rafael – levou Malik para uma academia de musculação dizendo que ele poderia malhar de graça se, à noite, limpasse e arrumasse o lugar. Malik consentiu com um aperto de mão e um quase-sorriso. Era academia de manhã, entrega de tarde, limpeza de noite.

No quinto mês Rafael apresentou “Careca” a um Malik grande, musculoso, assustador até. “Careca” era um cara simpático, de sorriso frouxo e sandália, tipo que a cada meia hora dá um tapa no seu ombro e levanta ainda mais a voz pedindo outra rodada. Foram três dias de conversa fiada na saída da academia, três dias e Malik já havia – com coisa de “sim”, “é”, “a-ham”, “vamô vê” – arranjado uma cadeira do lado de fora da boca mais movimentada por ali. E era uma cadeira rentável: trezentos por fim de semana e cinqüenta por noite avulsa. Agora não precisava limpar pra malhar na academia.

Na verdade muita coisa ficou de graça, o que aumentou o tempo livre. Nada antes tinha dado a estabilidade de sentar naquela cadeira de bar, do lado de fora de três casas geminadas de tijolo exposto, das sete da manhã às sete da noite. Era olhar em volta, três sinais básicos pra “passa”, “volta” e “espera”. O resto não era mais com ele.

No tempo livre Malik sumia. Havia arranjado uma moto de terceira mão e na semana passava o dia na rua. A mãe, desgostosa, falava cada vez menos, o padrinho, sabendo, procurava cada vez mais. Telefonemas e até carta foram parar das mãos de Inácia para a porta do quarto de Malik. Nenhuma resposta, nada. Para a mãe apenas uns maços com notas vermelhas e marrons apareciam dentro do criado-mudo, nada mais.

Com o tempo veio o respeito. Malik era o guardião da porta do inferno por ali. Não perguntavam mais onde ia ou o que fazia nos dias de semana, diziam que havia arranjado uma namoradinha pros lados de Jacarepaguá e isso acalmou os curiosos. Nem todos.

Num dia cinza Careca mandou Binha e o Derú seguirem Malik. Malik queimou o asfalto na Perimetral, desceu pro Centro, Glória, desapareceu. Dia seguinte as namoradinhas de Binha e Derú desapareceram para nunca mais. Passou a ficar desinteressante seguir Malik. Até porque ele sempre estava presente no serviço, ali, imóvel, impassível. Olhos negros que marcavam a cadência da vida no lugar: “espera”, “volta”, “passa”.

Um dia homens de preto, colete, fuzis e coturnos subiram as escadarias. Fecharam as saídas por baixo, comeram muito chumbo, o ar pesava e zunia. Era ano eleitoral, todo mundo sabia que não ia parar por ali. De dois em dois anos a coisa ficava mais tensa, que era preciso mostrar serviço. O pessoal sabia que tinha que fugir ou morrer, porque a TV tava lá: dois repórteres, um em cada das grandes saídas.

Depois de três dias, o sopé tava cercado. “Careca” e o chefe lado a lado agachados na saída das casas geminadas. Dava pra ver as manchas negras se movendo, subindo as ruelas. Entrecortando os silêncios ocos elas iam atirando e subindo.

Foi quando “Careca” entrou na casa, correu pro canto da parede e se enterrou no chão com a boca num cano retorcido que dava pra parede da casa. O som da porta se arrebentando com o pé de Malik inundou a casa, arrastando pelo pescoço o chefe que se esvaía em sangue e debatia. Assim que viu o cano, por onde Careca respirava, afundou o pé com toda força.

Por trás das costas de um Malik nublado e impassível entraram na casa três homens do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar. Dois dos pacotes com notas de cinqüenta e cem voaram para os braços do guardião da porta do inferno. No dia seguinte dona Inácia ganhava uma chácara em Mazomba, Itaguaí.

Conto e Receita: Renato Kress

terça-feira, 23 de março de 2010

"Ela"




- Ah, ôu, na boa! Como vocês acham que deve ser "ela", então?
- Ah, cara, sei lá. Tem que ser linda, dessas que a gente chega em casa e pensa que entrou na casa do vizinho rico e bonitão, sabe?
- Nem acho. Tem que ter aquela sintonia, cumplicidade, companheirismo.
- E ser boa de papo é indispensável. Acho que tô com a Sofia muitas vezes porque gosto da voz dela.
- Tá, a Sofia é a maior gata, nem é só por isso. Se ela não malhasse pacas e trabalhasse contigo você talvez nem desse bola pra voz dela. Pra mim a mulher tem que te seduzir. E tem que ser diário isso.
- É surreal, a sedução cansa, porque é um jogo, cara! Sedução não é meio de vida, é um jogo e se ninguém apita a partida a gente acaba cansando rápido demais. Depois de um tempo você olha pro lado e pensa que se tem sempre que se dar todo aquele trabalhão... no fundo acaba não valendo a pena.
- Teco tem razão... e, na moral? A gente curte um troço meio frenético, pesado, sem discussão, sem desculpa, sem frescura.
- E não é?

E rola mais uma rodada entre aqueles quatro amigos, na beira da praia, um domingo nublado do lado do carrinho de cerveja.

- Falando sério? Depois da Paula eu decidi que mulher tem que ter graça, que a gente tem que rir junto.
- Mas a Paula era a maior mal-humorada, cara.
- Porra, por isso mermo! Imagina ficar dois anos com uma mulher que não dá um sorriso, sempre reclama de tudo. Parecia uma velha, de mal com a vida: "Vai comer esse sorvete? Que horas a gente vai na minha mãe? Achou a menininha bonitinha?". Na moral, vai regular a mãe!
- Mas era gostosa...
- É, uma velha gostosa! Ainda assim uma velha... e com o passar do tempo a gostosa vai embora e você só vai ficar com a velha mesmo. E sabe o pior? Uma velha treinada! Treinou desde os vinte pra ser insuportável aos setenta. No fim de tudo você não consegue nem conversar, até olhar pra cara da pessoa te cansa. No fim das contas eu olhava pra Paula e via uma tabela nutricional e os horários da academia!
- Cara, a conversa tem que fluir, não tem como! Imagina, pode ser a mais deliciosa...
- Tipo aquela ali? Biquini amarelo?
- Não, aquela pode ficar calada que tá tudo certo...

Gargalhada geral e mais uma rodada de cerveja entre os amigos. Os olhos quase atravessam as latas fulminando a morena de amarelo.

- Mas falando sério, a Paula era melhor que essa aí, e não deu pra sustentar.
- Cara, ela se daria bem com um cara parecido com ela, mais caladão ou que não gostasse da vida, reclamasse por esporte. A coisa é você encontrar quem tenha sintonia contigo.
- Tá acreditando em alma gêmea agora, Nathan?
- Não falei em alma gêmea, ler pensamento deve ser bizarro. Imagina, você pensando "preciso largar um barro" e sua alma gêmea ali, dentro da sua cabeça... Cara, o lance é essa sintonia do momento. Porque as pessoas tem fases, nem sempre são as mesmas, e aí a gente tem que estar ligado pra viver aquilo junto ou deixar passar a fase...
- Ou deixar passar a pessoa.
- É... ou isso.
- Esse lance de "ela" não existe! Na boa! Tudo tem começo, meio e fim. Não tem como!
- Mas se a gente está procurando "Ela", no mínimo é porque não quer pensar no fim por agora.
- Ou nem acha que precise ter fim. Nathan mandou bem, a coisa tem fases. Se a gente passar as fases juntos, na sintonia, as coisas vão passando e a gente vai se acertando. As fases começam e terminam e a gente continua junto.
- Na moral? Dificil paca, você sabe, eu sei, qualquer um sabe. Pra isso a mulher tem que ter uns valores parecidos com os teus, e valor é loteria! Não é o tipo de parada que você pega naquela primeira conversa perfeita, num bar com uma vista foda e você só tem vista pro sorriso...
- ...ou pros peitos...
- ...ou pros peitos dela! Mas é isso. Os valores da mulher a gente só saca quando já cansou ou acostumou com o sorriso... e os peitos... dela.
- Mas pra viver junto não tem outra, ou os valores batem ou a gente acaba se batendo! Lembra da Aléxia? Ela não me deixava sair com vocês, queria que eu ficasse em casa estudando e meditando com ela. Cara, meditar domingo?
- Ela não prestava concurso? Tinha que estudar mesmo!
- Acho que nesse caso foi tu não querer ela mesmo. O lance dos estudos...
- ...e meditação!
- ...e meditação só não foram contornados porque você nem tava afim. A menina era meio nerd meio hippie, você não é. Não deu. Paciência.

O silêncio se corta com a mão de Teco que aponta para a beira do mar:
- Mulher tem que ter coxa!
- ...e bunda! Sem bunda não há estabilidade no relacionamento. Como é que se espera de um brasileiro que viva sem bunda dentro de casa?
- Ô, e viva a bundalização geral!

Mais uma rodada. O sol começava a se abrir e a areia pinicava as canelas dos oito pés afundados.

- Sei lá cara, às vezes penso que seria bom dividir a vida com alguém, ter uma pessoa em casa pra te fazer companhia, pra ler, ir no cinema, falar bobagem.
- Pra lavar, passar, cozinhar...
Um tapa no ombro e chute na canela depois
- "Xá" de ser escroto! Na boa, seria bom só ter alguém pra você relaxar junto, sem ter que pensar, que repensar nas palavras, nos atos, até nos teus pensamentos. Se eu não consigo relaxar com uma mulher, não sei pra que serve ficar com ela.
- Verdade.

Foi quando Teco, Nathan e Rafa olharam para o Bruninho. Todo mundo falou alguma coisa, menos o Bruninho. Silêncio geral.

- Que foi?
- Você não falou nada cara!
Bruninho em tom de defesa:
- Concordei que a morena de amarelo era gata!
- E...?
- E é isso.
- Ôu Bruninho! Pera lá! Vai dizer que você não imagina como deve ser a tua "ela", a "Bruninha"?

Bruninho baixou a cabeça pra lata de cerveja, levantou os olhos e encarou fundo os três amigos, coisa de dois segundos para cada um. Deu um sorriso:

- Sinceramente? Na moral mermo?
- É.
- Escrevi uma carta pra Laura outro dia, mas decidi não mandar. Frases soltas, não sou de escrever. Ainda tá no bolso:

"Pensei em sair com você. Tentar algo de verdade. Chamei algumas vezes. Da última você simplesmente foi ríspida. Chamei, cheguei até a insistir. É o que faço quando quero algo, faço o possível. Ir na tua casa tocar tua campainha não ia fazer, nem teu telefone eu tenho mais, perdi com a minha agenda. Sua amiga veio falar comigo. Pensei que poderíamos ainda tentar algo e tentei de leve. Mais uma furada. Agora se quiser sou teu amigo. Conversaremos sempre que você quiser, mas a gente cansa de tentar. Ainda mais quando percebo que a concorrência mexe mais contigo do que eu. Parece não, mas me valorizo. De qualquer forma, se quer voltar pra São Paulo conversa com seus pais, procura apoio, não fique num lugar que não te faz feliz. Na boa. Eu quis continuar nossa história, foi quando percebi que nem sempre tem de haver uma história. E muitas vezes, simplesmente não há."

Eles ficaram se olhando... sem muita certeza do que falar. Foi quando o próprio Bruninho deu uma risadinha e falou:

- Cês viajam! Escolhem demais! Sabe porque eu não vou mandar a carta? Porque não vale a pena. É coisa que a gente escreve até pra si mesmo. Acho que se vocês querem uma "ela", é bom começar a serem o tal "ele". Porque zapear mulher é mole. Ficar lá no controle remoto na night, mudando de boca como quem muda de canal. Seduzir, comer, tudo muito legal, ego vai pro céu e a gente acha que tem a lábia e a pica de platina, mas sinceramente? Mulher é problema como homem é problema porque gente é problema! É uma foda! E se não fosse, como é que ia valer a pena?

Conto e receita: Renato Kress

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um ornitorrinco na rave



Porque era bizarro mesmo. Foi uma aposta de quatro intercambistas, em dois mil e cinco. Hans e Paollo disseram a Thalia e Sabrina que iam levar um ornitorrinco prum trance em Melbourne. Thalia tinha a estranha mania de levar um ornitorrinco de pelúcia para as festas e tiravam várias fotos do bichinho de óculos escuros, tomando red bull e até nadando numa piscina somente com mulheres, isso deu aos dois rapazes a idéia inicial: "e se fosse um de verdade?"

Aquela idéia passou a ser cada vez mais surrealmente divertida e estranha, principalmente porque os mamíferos ovíparos com cauda de castor e bico de pato vivem presos em cativeiro, no escuro, em ambiente aquático. Perceberam que em Melbourne a segurança dos viveiros é praticamente impenetrável, o que excitou mais ainda o ânimo dos amigos. O clima todo era de missão impossível e os rapazes ficaram dias bolando a melhor estratégia e o melhor ponto para se conseguir um espécime.

Tentar caçá-lo ou capturá-lo além de crime ambiental provavelmente ia levar os estrangeiros, alemão e italiano, a serem deportados, na melhor das hipóteses. Pesquisaram o animal na wikipedia e descobriram que o bicho, além de tudo, deveria ter parentesco com escorpiões também, afinal "O macho tem esporões nos tornozelos, que produzem um coquetel venenoso, composto principalmente por proteínas do tipo defensivas (DLPs), que são únicas do ornitorrinco. Embora poderoso o suficiente para matar pequenos animais, o veneno não é letal para os humanos, mas pode causar uma dor martirizante e levar à incapacidade." - ok, luvas de borracha! Visitaram virtual e pessoalmente os cativeiros mais próximos, analisaram o sistema de segurança de cada um dos santuários como Healesville e o parque da vida selvagem David Fleay e, depois de decidir raptar um de uma cidade bem longe, procuraram as rotas de fuga no google maps.

O plano ficou simples: Paco - o ornitorrinco de Thalia - seria o dublê. Um carro com os dois seguiria para o hotel Hilton de Brisbane, onde uma família de adoráveis quadrúpedes esquisitos era mantida para a diversão de seus abastados hóspedes e a segurança parecia mais... "relapsa". A ida, passando por Shepparton, Moree e Warwick era fornecida como o caminho mais rápido, predizendo vinte e uma horas de viagem. Nessa hora poderiam obedecer às rotas indicadas como preferenciais, mais rápidas, a volta é que era o grande enigma. Atravessar o deserto australiano via st. George e seguir um retão até girar noventa graus em Cunnamulla, seguir até Cobar e passar por cidades nada turísticas como Wilkannia e Broken Hill, descendo de volta até Melbourne, esse acabou sendo o caminho mais interessante, mesmo levando um dia e seis horas de viagem.

Chegando em Brisbane, um dia antes do festival de música eletrônica em Melbourne, Hans alugou uma pick-up, deu uma volta na cidade e voltou para a concessionária, alegando que o carro estava com um barulho esquisito e que ele preferiria trocar. Falando com uma certa pressa em visitar a namorada fictícia e fazer uma surpresa, acabou saindo com o segundo carro e indo direto ao Hilton. Enquanto isso Paollo estava observando o aquário negro onde os ornitorrincos nadavam, alheios ao bate estaca que em pouco mais de um dia envolveria algum felizardo contemplado com a possível fama instantânea, no lugar daquela água negra. Os dois amigos passaram pelo mesmo corredor, caminhos opostos, como se não se conhecessem. Paollo carregava uma gaiola envolta num papel de presente com Paco dentro. Hans estava com as mãos nuas.

Cinco minutos após se cruzarem Hans passa com o animal pingando nas mãos, os seguranças correndo atrás! Paollo tenta interceptá-lo, mas os dois se chocam e Hans é capturado. Paollo sai xingando, com seu pacote de presente, Hans é levado para dentro do hotel com a gaiola. O plano de trocar de carro, fechar contrato com um e levar outro na locadora pra despistar a polícia e fugir com aquela prova do humor de Deus parecia frustrado... ou não?

Um dia depois está na primeira página dos jornais locais de toda a Oceania, as fotos de Paquito, o ornitorrinco de óculos Oakley e camisa Ecko nadando na psicina de bolas, com Paollo, que teve que ser resgatado porque, num acesso de carinho com o mascote da festa, perdeu o movimento do lado direito do corpo e não conseguia sair da piscina, de onde foi retirado por policiais australianos.

Conto e Receita: Renato Kress

quarta-feira, 17 de março de 2010

Vingança perfeita (ou Mulheres e sapatos)




Ele não conseguia deixar de pensar nela. Mas isso é porque havia uma história. Num carnaval passado haviam ficado juntos a semana toda. Segunda vez que estavam juntos, sendo que da primeira - quando se conheceram - ela estava tendo as primeiras férias depois de três anos ininterruptos a serviço de uma grande empresa. Largou uma viagem de um mês para ficar quatro semanas na casa dele. Talvez o excesso de proximidade repentina, talvez uma xícara "para o melhor namorado do mundo" no aniversário dele, no fundo não sabe. Tudo muito rápido, tudo muito denso e intenso um espaço de tempo minúsculo como se um suspiro mais profundo fosse estourar aquela bolha de ar sentimental. Ele não resistiu. Se afastou.

Depois veio o carnaval, trazendo antes da hora o vazio sentimental da quarta feira de cinzas. E ele viu a xícara e o telefone lhe veio à orelha e a campainha trouxe ela de volta. O carnaval mostrou a distância entre gostos e a lua de mel do primeiro mês se esvaiu por entre os dedos dela, que não largavam o playstation dele, e os dele, que experimentava mil perucas para sair nos blocos. O tiro no peito dele foi o Oscar, no fim do carnaval, o bloco na esquina, ele na porta e ela querendo ver o Oscar - "porque a Angelina estava muito magra, mas o Brad lindo..."

Então eles se separaram. Os meses trouxeram pessoas que não trouxeram sintonia e derrepente não era de todo ruim que ela gostasse do video-game, até que ver o Oscar sentindo o perfume dela passou quase a ser uma obsessão. E o telefone veio à boca e campainha ficou muda. Ela estava namorando. Foi quando bolou a vingança perfeita.

Passeando por um bairro vizinho ao seu, desceu os olhos sobre um par de sandálias que ela sempre quis. Entrou - entre os sorrisos das vendedoras para o provável "melhor namorado do mundo" -, comprou. Dez prestações na Nine West. Passou numa floricultura, um buquê de rosas colombianas e um cartão vermelho.

Finalmente trocou o telefone por um rádio, novo número, nova vida. Bloqueou e excluiu ela de toda virtualidade possível, orkut, facebook, msn, twitter, até os e-mail's dela marcou como spam. Era o melhor momento.

Às nove horas da noite, voltando da academia, ela encontrou um buquê gigantesco de rosas na portaria, enfiado na sandália mais linda que ela já vira. Estranho... só o pé esquerdo. Do lado de dentro um cartão: "Game over. Thank's for playing."

Conto e Receita: Renato Kress

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A morte dos Magos (como nasce uma religião)

As histórias, em geral, são escritas pelos vencedores. Por um motivo simples: em geral são os que saem vivos dela.

O primeiro dos três grandes impérios a sentir a influência do Zoroastrismo - a religião de Zoroástro ou Zaratustra - foi o dos aquemêmidas, que governou a região do Irã no início do século VII a.C. até a conquista por Alexandre em 331 a.C., com um território que se estendia desde o Egito e a Turquia até o Paquistão. A terra natal dos aquemênidas era "Fars" (Pérsia), no Irã sul-ocidental, onde se encontravam Susa, capital administrativa, e Persépolis, a grande cidade-residência do soberano.

Grandes rivais dos gregos, que os derrotaram em Maratona (490 a.C.) e Salamina (480 a.C.), os aquemêmidas - ou Persas - adoravam tanto Ahura Mazda "que fez o céu, fez a terra, fez os mortais, fez a felicidade para os mortais e fez Dario rei" como dizia uma inscrição em Behistun, quanto outras divindades. Os textos do Avesta não podem ser datados, o que dificulta muita coisa na reconstrução dessa história, mas existe um episódio muito interessante, que fala sobre o nascimento das grandes religiões monoteístas, como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Na sua ascensão, o culto zoroastriano teve de conviver com a antiga fé politeísta de matriz indo-iraniana, confiada a sacerdotes conhecidos como Magoi, ou magos.

Os Magoi eram sacerdotes politeístas que acreditavam que todas as divindades de seu panteão existiam dentro de si mesmos e de cada cidadão do império aquemênida. Dentro de sua crença essas divindades poderiam ser invocadas em momentos específicos para a cura de uma enfermidade mental, física ou espiritual, para conceder forças e coragem na guerra, para melhorar as relações entre os fiéis etc. Da mesma forma existiam magois especializados em determinada divindade e a exercer o culto a ela, como os Magoi de Mithra "deus ancião", de Angra Mainyiu "o espírito do Mal", ou Zurwan "deus do tempo". Os Magoi, como classe, operavam curas que respeitavam a uma lógica interna que poderíamos denominar de "equilíbrio dinâmico": o excesso de passividade era curado exercitando-se a divindade agressiva dentro de si, o oposto para o excesso de agressividade, a intempestividade da adolescência era curada exercitando a observação refletida do deus ancião etc. A noção de equilíbrio dinâmico permeava sua religião, como sua política, sua colheita, relações familiares e sociais.

Os zoroastrianos, embora não o reconhecessem, eram uma seita dentro dos magoi, que acreditavam que Ahura Mazda - uma dentre as várias divindades do panteão dos magoi - possuia um estatuto maior que os demais, era mais poderoso, mais digno de reverência e adoração. Em prol dessa crença e, submetidos aos ditames dos magoi, eles convenceram o imperador Ardashir a convocar uma assembléia onde os magói e os zoroastrianos discutiriam formas de mesclar suas crenças para que o povo não ficasse dividido, o que enfraqueceria a todo o império aquemênida. Temendo a rápida ascensão dos zoroastrianos, os sacerdotes magoi, a princípio, recusaram essa assembléia, mas, como os zoroastrianos ergueram estátuas de todas as demais divindades às portas de Persépolis - como sinal de amizade e confraternização - os magoi enfim cederam.

Tudo naquele "concílio" era simbólico. Os magói caminhavam à esquerda enquanto os zoroastrianos à direita em duas filas indianas que contornavam o trono de Ardashir. O imperador abençoou a união daquelas ordens religiosas e indicou a sala onde o concílio, marcado para durar um ciclo lunar inteiro, deveria ocorrer. A sala representava o território do imperador, toda a vasta região dominada por Ardashir. Cores diferentes em tapeçarias diferentes simbolizavam cada uma das importantes cidades, territórios, províncias e domínios. Os móveis e tapeçarias continham um forte aroma de Sândalo e especiarias, tão forte que chegou mesmo a enjoar muitos dos sacerdotes ali presentes. Como os Magoi foram os primeiros dentro do território, seus sacerdotes, com seus chapéus pentangulares, suas vestes lilases e púrpuras, suas sandálias trabalhadas em couro fino, também foram os primeiros a entrar na sala, em fila indiana, em silêncio. Sentiam-se honrados em entrar primeiro, era seu direito simbólico e santo ocupar primeiro aquela terra representada na sala. Em silêncio aguardaram até que o último magoi entrasse naquele enorme aposento perfumado. O cair da tarde se verificava pela abóbada aberta no alto, espaço livre para as divindades celestiais entrarem em contato com as terrenas.

À entrada do último e mais novo dos sacerdotes magoi, a sala foi trancada abruptamente e a estátua de bronze de Angra Mainyu usada como tranca. Do alto dos sete metros de altura da sala caíram, em sequência, uma a uma das cinquenta estátuas de mais de dois metros de altura de cada uma das divindades que haviam sido postas à entrada de Persépolis. Alguns sacerdotes correram para os cantos da sala hexagonal desesperados, gritando pelas paredes vazadas, trabalhadas em flores e motivos religiosos: foram mortos a golpes das lanças que atravessavam as frestas das paredes. Os poucos sacerdotes que tiveram forças e reflexos para não serem esmagados pela chuva de granito, mármore e ouro e se reuniram no centro da sala, única área onde as estátuas não podiam atingir, visto que eram arremessadas de uma grande área circular do teto abobadado, perceberam uma luz forte sobre suas cabeças - que chegaram, por segundos, a compreender como a resposta às suas preces - quando várias flechas incandescentes penetravam o salão embebido em álcool e éter disfarçado pelo cheiro das especiarias.

A nova religião monoteísta permitiu regras de conduta mais estreitas, onde o império de Ardashir pôde militarizar e dominar novas regiões. Reza a lenda que Irineu um dos principais teólogos da Igreja Católica, nascido em Esmirna (Turquia) viveu anos com essa lenda na mente e concebeu formas de adequá-la aos seus interesses no Concílio de Nicéia - primeiro concílio cristão.

Conto e Receita: Renato Kress

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Cartas de amor




Hoje eu escrevi mais uma carta na areia. Queria que chovesse. Deviam estar uns 40 graus. E talvez ela soubesse da carta. O que me deixou rubro. Não sei onde foram as sementes. Eu as trouxe para plantá-las aqui. Onde morram. Nada nasce da desolação desse deserto. Talvez seja onde eu consiga parir certas letras, nem tudo é tão doce como outrora. Há um monstro vil lá fora, tão minuciosamente sádico e umbralino que só pôde visitar-me após todos os seus filhos, desgraças do mundo, terem preenchido o vácuo de perfeição que assolara o planeta, o apocalipse no fim da caixa de Pandora, a esperança. Gota amarga de memória cauterizando eternamente a ferida, o membro decepado, a inexpressividade cáustica da sub-vida cotidiana. Lenta morte irônica e lânguida, fascinando auroras, rasgando pores de sol sob uma cortina de lágrimas. Lágrimas e sementes sobre um solo inútil, sobre uma carta de areia ao vento, à decomposição da memória, das histórias, do amor.

Conto e Receita: Renato Kress

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Olho no olho




Sua mão grossa puxava o cabelo crespo dela para trás com força enquanto ele estocava mordendo os beiços e olhando pra baixo. Adorava ver os umbigos se batendo. A direita puxava pela bunda e cintura lisa e o suor escorregava os dois de cima do tanque. O meio das costas dela batia na torneira e ela só via a luz do sol amanhecendo por entre o basculante. Ele gozou e saiu. Levantou o short e abaixou pra pegar a camisa.

Os olhos de Brás levantaram num susto – que se estendeu por longos dois segundos – enquanto ela apresentava o cano prateado da pistola dele para o meio do seu peito. Ele sorriu, tenso.

- Vai largá minha mãe e vambora agora!

Ele deu um passo pra cima dela, com as mãos pra cima.
- Vô porra nenhuma! Abaixa essa merda aí menina...

Ela não tremeu o braço. Brás ficou paralisado. Por segundos vermelhos saídos das veias do demônio ele viu a vida toda... piscou, e ela começou a tremer. Ele deu mais um passo. E outro. Já estava com o peito colado no cano quando disse:

- Tu num vai atirá nos meus peito me olhando nos olho!

Ela deu um passo para trás, abaixou o braço, a arma, o corpo. Caiu sentada no sofá, a pistola entre as mãos, a cabeça entre os joelhos.

Ele era rei. Vestiu a camisa, virou de costas e foi pro banheiro.

- Blam!

Entre a cintura e a bunda. Ele dobrou o joelho e enfiou a cara na porta do banheiro com tudo. Se tremia e balançava mordendo o beiço, com os olhos apertados. O sangue escorria quente e ela achou que ele se contorcia engraçado.

- Caralho Marieta... larga essa porra e pega a chav...

- Blam! Blam!

No rim e no meio das costas.

- É, não ia dá pra olhá nos teus olho mermo.

Conto e Receita: Renato Kress

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?