quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Adriana


Vou negar, vou mentir. Dizer que não é nada disso, que você não entende direito e por isso pensa desse jeito. Vou negar. Ignorar que pensa diferente e te explicar que é daquele outro jeito – que é o meu – porque vou mentir mesmo e é mesmo fácil – como sempre teve sido – aceitar que o que eu digo é a fórmula comum do bom-senso entre a gente. Não que essa vida possa ser algo de maravilhoso se de repente me der a louca e eu começar a achar que você fala coisa com coisa, nem é bem disso que to falando. Ás vezes eu só quero tapar esses teus estúpidos vácuos, de expressão, de vontade, de personalidade, e ir ao cinema. Só isso. Meu caso com meu corpo é problema meu e você sempre com aquela expressão, como se eu não fosse nada mais que uma extensão da sua coxa esquerda ou umbigo. Vou mentir. Não quero mais estar nem aí se você simplesmente desaparece e te encontro mal, te encontro pelos outros, te encontro com as outras. Não vou me desligar do que acontece não. Porque eu não acho que mereça essa atitude, nem o sorrisinho e o disse-me-disse dos teus parentes. É, sei. A essa hora já estamos todos putos brigando por alguma coisa que não sabemos qual é, mas que sempre foi o outro que começou. É mais fácil assim, não é? Sinceramente não sei muito bem o que ainda faço aqui. Deve ser bem costume mesmo, acordar, fazer café, te olhar de relance com ressentimento – põe aí até uma pitada de ódio, nem sei – e ir pensando pelo dia que já demos o que tínhamos de dar, ir me perguntando quando vou parar essa merda toda e assumir um outro rumo. Enfia o sorriso no cu e roda. Parece que você acha que me falta coragem, que não saberia me entregar a outro, não é bem isso, querido. Tem duas coisas que me prendem aqui e pode ter certeza de que nenhuma delas te agradaria ouvir. Pra início de conversa – porque esse teu sorriso ta me enchendo o saco – eu não sou tua, nunca fui e nunca serei. Sou minha. A decisão de entregar meu corpo para você é momentânea e foi feita em separado a cada momento daquela cama ali. Depois disso eu volto ao zero. As melhores noites aqui foram as que passei na varanda, quando você enchia a cara, quando dormia fora. Não que eu não pudesse ser sua, é que você nunca conseguiu me fazer sua, nem uma vez. Daí eu volto a mim e repenso, a cada trepada nossa, se quero fazer isso de novo, se essa novela mexicana vale a pena. Vamos encarar? Eu adoro a vista do teu apartamento, principalmente quando você vai embora, mas você é um merda na cama. Se conheci caras melhores? Pode ter certeza. Por que não fiquei com nenhum deles? Nem tudo na vida é sexo meu caro. E se fosse não seria com você que eu ia me prender. O outro motivo de não largar você? Talvez esteja falando dele agora justamente porque já não me incomoda mais. Eu tenho um pouco de pena. Olha bem pra você. Isso, se olha no espelho mesmo. Não acha que você ta pesado, carregado de certezas superficiais como a de que no fim dessa conversa eu vou deitar naquela cama ou te perguntar se quer café, de que no fim vou deixar isso tudo pra lá e ficar feliz se achar o canário que fugiu na quinta passada? Essas tuas certezas, no começo, me deixavam puta! Eu pensava: ‘Caralho, que arrogantezinho de merda. Burguesinho escroto.’ E depois sentava na tua varanda, porque, porra, a tua vista é incrível. Eu é que tô sendo babaca? Você me fez de mãe, seu corno! Olha bem na minha cara: eu não sou tua mãe, valeu? Hoje eu tenho pena, muita pena das tuas certezas. Teu mundo é tão clean, tão transparente, tão superficial que falta vida, cara! Sabe, acho que entrei na tua porque precisava de um tempo. Ficar sem estresse por uns meses, ficar sem pagar conta, ficar sem mergulhar em preocupação, descansar. Depois voltar pra vida que dessa tua vida sem sujeira, que dessa tua vida sem segredo, onde todas as chances de algo real, podre, imundo, escondido... eu ia encher o saco cedo demais. Tinha certeza. Entrei nessa casa há mais de um ano, já deixando as roupas perto da porta – queria fugir no meio da noite e te deixar um bilhete em braile só de sacanagem, dizendo: ‘Acorda cara.’ Fui entrando pela cozinha - você nem notou que me fez entrar pela primeira vez logo pela cozinha – e vendo por onde fazia pra sair. Até que eu vi a varanda. Não que não imaginasse, pela portaria, qual era a tua vista, mas nem podia mesmo acreditar que fosse assim. Aí eu fiquei. Não digo que tô arrependida de tudo, porque a tua vista é fenomenal e porque, convivendo com você, pude perceber o quanto a minha vida faz sentido. A gente aprende por contraste, comparação, sei lá. Deve ser por isso que ninguém consegue imaginar o infinito e é justamente por isso que eu vou ficar aqui, para dar sentido pra minha vida. Agora me faz um café. – Disse Adriana em frente ao espelho, 3 minutos antes de receber Marcos, sorridente.

Receita e Conto: Renato Kress


Fotografia: Caroline Poirey

22 comentários:

disse...

Mto bom!!
Parabéns!
bjs

Cynthia disse...

Meu amor, não preciso nem dizer nada.
Vc sabe o quão foda eu acho seu conto.
Escreve um aí com Cynthia e usa o meu inferninho.
Ah, amei a idéia do caf~e com conto.
Casou muito bem.

Amo vc.

bjos

Ana Carolina disse...

Marcus "é" com u ... rs, e combina mais com o conto ...:P

Tô precisando de um café...tem ai? rs

Patrícia Evans disse...

Achei seu blog!!! Lindo conto - café delicioso, huh? Saudades.

Ana Rachel disse...

Não fez pausa pra respirar por recurso estilístico como o Saramago ou pra dar ênfase ao desabado? Ou os dois? :P Manda um abraco pra menina-você :)

Renato Kress disse...

Ênfase ao desabafo, detesto escrever sem pausas como o Saramago. É questão do desabafo mesmo... rs.

Anônimo disse...

Instigante... Lembra João Ubaldo Ribeiro...
Muito bom...
Parabéns Renato.
Bjs, Lú

Diom disse...

Legal a idéia do blog. Não posso tomar muito café porque tenho pressão alta, mas o conto me agradou com essa verborragia caótica, bem pós-moderna. A foto também é bonita, gosto do crepúsculo (ou do amanhecer?)...

Diom

Renato Kress disse...

Diom,
agora você levantou uma boa questão. Não sei se a foto é do crepúsculo ou do amanhecer, acho que do amanhecer, mas só a Carol pra saber realmente. Foi ela que tirou a foto.

Abraços!

Nath disse...

Profundo, violento, nonsense, rápido, gostoso, intrigante, perfeito!!!!!! Seu conto é muito, muito bom!!! Bjs carinhosos!!!

Izabeli disse...

Muito bom! Tanto o café qto o conto :-)

Anônimo disse...
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Ana Luisa disse...

Adorei!! Maravilho!! Tanto o conto quanto o café ... Uma combinação perfeita. Deu ate aguá na boca.... ai ai

Danielle disse...

Adorei o conto!!!E gostei mais ainda da idéia do bilhete em braile!rsrs
(Realmente só algumas varandas valem à pena!!!)
Parabéns,algo q chamou minha atenção às 3:00 da manhã...bjo!

thatha26bat disse...

Oi Renato!
Vc tá de parabéns!
Suas palavras são escolhidas de uma maneira mt peculiar...
Gostei demais!
Abraço

Anônimo disse...

Adoreiii!!!
Catarse mil se n fosse pelo final.
bjos!!!

Lorena Queiroz disse...

Sensacional esse conto! Direto ao ponto. Realidade nua e crua (adoro isso). Ainda estou estagnada no primeiro conto e no último, lendo o segundo! Beijos!

Maria luisa disse...

Comecei a ler seus contos a pouco tempo, mas posso dizer q esse é um dos melhores,adorei,realmente vc é muito talentoso, inteligente,surpreende sempre...Sucesso, bjsss!

Flavia Mattos disse...

Ola amigo Renato !!! Comecei a ler e me deparei com este aqui... amei esta: "Ás vezes eu só quero tapar esses teus estúpidos vácuos, de expressão, de vontade, de personalidade, e ir ao cinema. Só isso. " Muito legal!!! um desabafo mesmo...pena q ela nao disse tudo na cara dele... Ela nao ´e Ariana certamente....hehehee....bjs!!!

Anônimo disse...

depois que ela vomita toda sua ira...mágoa...uma verdadeira catarse...volta a estaca zero!! conheço algumas que são assim...graças a Deus não gostaria de viver assim mesmo!!

Sayonara Salvioli disse...

Adorei: ritmo, fluência e "sensorialidade verbal"!... Leitura ágil e independente, peculiar cognição em fôlego único!
Acho que a literatura é isso: enredo, cenário, ritmo, narrativa diferenciada, desfecho meio leve, meio pragmático...
Voltarei sempre para sorver uma xícara de café com letras dançantes! :)

Aamanda M Gomes disse...

Quando ensaiamos parece que tudo fica mais fácil, mas na hora da verdade é que se percebe o grau de dificuldade que o ser homano tem de expressar o que realmente incomoda.

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?