quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Roda da Fortuna



“Que ódio! Era você! Fui com a Marina naquela degustação, comer, conhecer e dançar no final. Só isso. Queria dançar, provar, ver gente bonita. Quase não temos nada a fazer num domingo, ainda mais chuvoso. E você... Tem pouco tempo que nos víamos sempre, que nossa vida se encontrava todos os dias por alguns anos, que eu tomava café na tua cama, deixava meus sonhos nos teus olhos antes de dormir.

Não quero falar com você, não te passei mais e-mail, não te esperei na esquina da sua casa. Parei de visitar nossos amigos em comum, fui morar longe. Até minhas coisas que deixei na tua casa eu parei de te pedir. Não quero te ver, pensar em você me dói até. Não sou idiota a ponto de cutucar feridas o tempo todo, ainda estou cansada, cansada do que vivemos. Acho que é isso.

Então entrei lá feliz, eu e Marina, comemos bem, tomei um copo horrível de cachaça – aquilo parecia álcool Pring - e um outro delicioso, era até doce. Provei macarrão, bacalhau, sushi, paella, risoto, tudo em porção “single-serving” como comida de avião. Sentei e conversei, olhei de longe quando o show começou e me empurrei no meio do povo pra chegar mais perto.

As pessoas estavam olhando um casal dançando. Daqueles que a empolgação abre passagem na noite. Procurei desatenta o casal: Vi um cara alto, cabelos claros, pele bronzeada, sambando muito com uma menina magra. Tinha gente dançando, gente sambando, mas aquele cara chamava a atenção: Tava de camisa social vinho, calça preta, elegante. Ele sambava bem, chamava a atenção, brincava com a boca na orelha dela, rodava, puxava, avançava e fugia. Cheguei mais perto, mas ainda não tinha visto o rosto. Algum frio estranho me percorria a espinha porque quase antes de encarar de frente já sabia: era você! Impossível, mas era você! Era você moreno, era você bonito, você mais forte, meu Deus, era você sambando!!! Aquele nerd, branquelo e loiro que eu namorei, aquele cara legal e quieto que nunca dançava se não fosse junto, se não fosse pouco, se não fosse meio tenso. Era você ali com gente te olhando, com gente te apontando. Porra eu tava viajando! Só podia! Meu Deus, quanto tempo ficamos sem nos ver? Seis, sete meses? Que inferno! A magricela dançava mal, mas claramente você levava ela, e você ria. Não era a nova cor da tua pele bronzeada, tuas pernas mais grossas, teu cabelo mais queimado, era aquele teu sorriso infernalmente solto, tua boca sem rachaduras do frio, teu perfume que você teve o bom senso de não trocar. Sorriso dos infernos!

Tava te odiando e me odiando quando você me viu. Você me viu e veio, quase nem pensou, com aquele sorriso aberto, abrindo os braços, me apresentou a vassoura risonha que tava do seu lado, disse qualquer nome que não me lembro, deu dois beijos e disse que eu tava ótima – que porra de elogio é esse? – piscou o olho e arrastou a girafa pra dançar. Não tive tempo, não sei o que falei, se falei. Fiquei parada. Você não me olhou mais, girava, sambava, brincava com a maldita anoréxica. Você que dizia não gostar de magras, você que dizia que eu tava sempre bem. Me vi com as mãos na cintura, pensando se deveria mesmo ter começado a beber depois que terminamos. Não sei se você fez por vingança, não sei de nada. Me senti um lixo, descartada. Tentei lembrar quem tinha terminado. Até então eu sabia, tinha sido eu, óbvio – agora não tinha certeza de nada. Eu queria ver alguma emoção nos teus olhos, qualquer coisa, arrependimento, remorso, vergonha, incerteza, eu queria você sofrendo! Você tava sambando!

Virei pro lado, Marina tentou dizer qualquer coisa que não ouvi, puxou meu braço, me viu tropeçando nas palavras. Riu de mim e eu senti meu pulso fechar pra afundar a cara dela, porque não dava pra ir lá afundar a sua assim do nada. Ela me abraçou e chamou prum canto. Incrível como as amigas sabem o que a gente sente. Mas não vou me enganar, a Marina ficou te olhando também. Desgraçada que dizia que não tínhamos nada a ver que eu era muito mais bonita que você, que eu poderia conseguir coisa melhor. De longe eu me peguei fugindo o olhar e te procurando de boca aberta, puta da vida, torta, fudida. Não era você moreno, não era tua boca lisinha, não era teu cabelo com mecha, nem o absurdo de você sambando, era o soco no estômago absurdo de ver você sorrindo!”

Era isso o que você deveria ter escrito para mim, depois do domingo, Úrsula. Não era pra rir de longe e não me olhar mais, nem era pra ter estado lá com aquele morenão alto e ricaço, sambando a noite toda na minha frente. Era só isso.

Ass: Arthur.

Conto e Receita: Renato Kress

Foto: Caroline Poirey

9 comentários:

Izabeli disse...

Relances de flashback e concordâncias de gênero esquisitas, real e ilusão... O que seria então?
BJs

Anônimo disse...

"Também, ir a um lugar legal num domingo chuvoso aumenta as chances de encontrar conhecidos, visto que quase não há lugares legais para ir." ^^

Ana Carolina disse...

Izabeli... pensei o mesmo q vc... rs ... para mim... perto do real, senão todo real!

Ana Carolina disse...

Izabeli...pensei o mesmo q vc...rs...parece-me ao menos em parte ...real!

lucianakress disse...

Massa! elogio cearense q significa muuuiiitoooo bom! bjo no primo escritor!

celia disse...

Os acontecimentos vão se suceder, as oportunidades surgem ... tudo parte, tudo volta a se encontrar ... e a evolução é certa. Bjs Celia

Lorrayne disse...

São desejos e medos ...fantasia e relaidade..uma forma de expressar o nosso inconsciente q habita dentro de nós,mas que está sempre a um passo de ser revelado.
Beijos !

Paloma disse...

Ótima construção de fluxo de consciência !!
Li em um sopro só...adorei!
Beijos

Fabíola disse...

Adorei. Tem a agilidade de uma samba de gafieira mesmo.
Você tá caprichando na divulgação também, né? ;)
Essas visitas ao seu blog sempre valem a pena. Beijocas.
Fabíola

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?