quinta-feira, 12 de março de 2009

Construindo um castelo



- Puta que pariu, o Rio de Janeiro é um ovo, cara! Um ovo de codorna!!! hahaha Tá ouvindo? Essa porra tá chiando demais. Me liga quando chegar. Tô, tô sim. Três, e daí? Vem, vem, vem. Tchau. 

- Ei, cara, qual teu nome? 
- Antônio, senhor.
- Pega o "senhor" e enfia. Relaxa, é Felipe. Então Antônio, você mora no Rio há quanto tempo?
- Eu sou daqui, senhor.
- Vai ficar com o cu cheio de "senhor" cara, você que sabe! Pois é... ih, me vê mais um desse amigo aqui. Tá furado esse troço, hein Antônio! Não, não, não vai não. Ficaí. Meu primo tá chegando e eu preciso falar. Quantas namoradas você já teve, Antônio?
- Seis, senhor.
- Ah, ôu, Tonhô, fala sério cara! Seis? Cê é do Rio mesmo?
- Depois eu entrei pra Igreja, senhor. E casei.
- Opa! Derrubei o copo, cara. Tá certo... Desculpa te incomodar aí Antônio, traz o refil aí que eu vou ficar aqui quietinho. Pxxxiu, pxxxiu. 


- Deus do céu. Cacete, olha pra você. Se babou todo.
- Fala, cara! Babou nada, tô suado. Sentaí. Ihhh, olha tua cara... Você vai reclamar, encher o saco, então escuta pra poupar saliva: Eu não vou dirigir. Você me leva pra casa depois daqui. Tó, taí a chave. Se quiser fica com ela, ou me devolve amanhã que eu venho aqui pegar o carro. Outra coisa: só saio daqui depois que a gente colocar as cartas na mesa, hoje.
- Que carta o quê, seu maluco? O garçom me falou que você está aí falando palavrão e gesticulando. Pára com isso e fala o que você quer que eu te levo depois.
- Porra, Antônio. Eu não enchi com a tua "Igreja", você vem encher com meu palavrão? Vacilando... mas tu é um cara maneiro e eu te perdôo meu filho: In nomine pater et fili et spirictu santi e o escambau. 
- Já falei pra falar baixo, cara! Vai ficar de sacanagem eu te levo agora.
- Você falou pra gesticular baixo, esperto, não falar. Eu tô alcolizado, não tô surdo. Pára com a machisse. Cê não vai me levar nem me fazer rir. Quando eu te falei das cartas eu tava falando sério. Cartas. Baralho.
- Ah, quer jogar truco agora? Vai perder, doido.
- Não. Pede um chopp pro Antônio e espera.
- Antônio, me vê um suco de laranja, por favor, e um chopp.
- Obrigado.
- A laranja é pra você.
- Ah. Só vai me fazer mijar, você sabe.
- Menos mal. Que que você quer falar, Felipe?
- Uhh... "Felipe". Parece minha mãe. Que se foda. O lance é que hoje eu encontrei a Carla. Achei que ela era tipo um quatro ou cinco de copas pra mim, sabe? Mas cara, ela tá linda e com a cabeça legal e tudo o mais. Não diria "Ás", mas foi um "sete", ou um "pagem" maneiro. Tem futuro.
- Tá, agora eu viajei. Que lance é esse de "pagem", "ás" e tudo o mais? 
- Ah, pagem não tem no baralho que você conhece. Pagem é o "dois". O dois você sabe, pode ser um começo, um potencial, uma semente, um espacinho pra coisa crescer, ou pode ser só dois mesmo. Você e ela ali. Dois segundos de um sorriso correspondido na multidão, dois minutos num bloco de carnaval, duas horas numa festa, dois dias numa semana. Mas sabe, não é mais que isso, é dois. O dois é aquele maldito enigma. A merda do dois é que ele fica em aberto. Não é como o três.
- Tá empolgado, hein!
- É essa lua, olha!
- Tá linda mesmo. Foi a Carla, não foi?
- Ah, ela agora é o dois, sabe? 
- O dois com potencial, imagino. Ela nunca vai ser o dois das duas noites, das duas semanas. Não pra você.
- Ah, não tem como, a gente foi noivo. Morei com ela...
- Tá rindo de quê?
- Ah, cara. Eu tinha 19 anos. Era um moleque. Tava vivendo um sonho ali e nem me ligava. Não tem arrependimento, não tem nostalgia, só tem a graça do destino mesmo. Essa dança maluca. Se Deus é safo de não jogar dados com o universo eu não sei, mas a gente joga fácil com a nossa vida, não é?
- Você sempre jogou. Eu não.
- Nem vem que você arriscou pacas. Tá namorando agora esquece que quando estava solteiro você escrevia cartas que só faziam sentido depois da terceira? Que bolava umas surpresas absurdas. Pagou pro garçom pra ele levar uma carta dentro do cardápio pra Fernanda que eu lembro. E nem ficou sério com a Fernanda, tá namorando com a Laila. Malandrão você, nem vem.
- Isso não é arriscar, é investir!
- Tem mesmo diferença? Não responde. Pensa aí que eu não terminei minha história das cartas. Te falei que o dois fica em aberto. Pois é. O dois fica em aberto, diferente do três. O três é finito. Tem aquele gosto meio triste da resignação, sabe? Pensa nos relacionamentos de dois meses e nos de três. Os de três terminaram porque não davam mais. Passou o prazo de validade daquela perfeição infantil do início. A perfeição mesmo, aquela do sorriso diário, das cartinhas pela manhã antes de sair pro trabalho, do dia inteiro no celular mandando mensagem só dura dois meses. O terceiro é a prova. Sair uma segunda vez é ainda tentar a primeira, de novo. Sair uma terceira é ver o que tem depois. Se o depois não agradar, se não morder na alma e cravar legal que nem âncora de navio, ferrou. O três é meio fechadão, sabe? É como um tripé mesmo. Você é engenheiro, saca isso melhor que eu, com dois pontos de apoio é complicado erguer qualquer coisa, com três vc faz uma cadeira. Ela tende a cair, eu sei, mas ainda assim dá pra fazer. Dá até pra sentar por um tempo, só não rola se sacudir em cima que a base não é boa. Mas aí não tem como, você tem que correr pra fazer o quatro. Porque com o três não tem jeito, mais cedo ou mais tarde a gente cai.
- Quero ver você correr ali e fazer o quatro, isso sim. Ah, ô, fecha a cara não. Isso dos números tem a ver com grau de intimidade também, não é?
- Tem a ver com tudo cara! Você sabe que quando a gente bebe as respostas vêm, tudo se encaixa e que nas mesas de bar todas as questões de política internacional, amor e filosofia se resolvem em três ou quatro rodadas.
- Pra você pensar tanto assim é porque já rodou faz tempo.
- É, semgraçalho pracadinho você. Quer ouvir ou não?
- Agora tá bom, continua aí. Obrigado Antônio. Desculpe o inconveniente, ele vai ficar quieto. Tem açúcar? Obrigado.
- Tô afim de tomar isso não. 
- Então levanta e vamos embora.
- Chatão você, hein! Coloca bastante açúcar nisso então.
- Vai falando aí. Tá engraçado ouvir.
- Eu vou escrever isso, cara... Que cara é essa?
- Escrever se você lembrar.
- Tô te contando pra você me ajudar, pô.
- Ah e eu pensando que era pelos meus belos olhos verdes. Tá, pode tomar.
- Valeu. Então... a Carla chegou no oito sabe? Quando a gente começa a pensar em juntar grana e viver uma vida confortável a dois? Tipo viajar, comer fora direto, fazer curso junto, aprender a dançar, a gente fez kung-fu junto e forró.
- Legal, cada um com as suas vontades e os dois juntos. 
- Quase isso. Mas ela chegou no oito, isso é que é o importante. Ela era meu oito perfeito. Perfeito naquela hora, sabe? No oito a gente vive cada dia como se fosse o último. A gente era noivo, morava junto, mas nem tocava em assunto de casar. Filho era realidade distante, encarada como funeral, sabe? Casamento você acha que vai rolar, você encara numa boa, mas não fala tanto e age como se pudesse pensar nisso amanhã. Aquele "amanhã" metafísico, tá ligado? Filho não é agora, o agora é a realidade, então filho é irreal no oito, ou surreal, sei lá. O oito é meio budista, sabe? Se você pensar bem até o número me lembra o gordinho sentado meditando. Maior embaixo com a carequinha redonda em cima. Simples assim. Namoro de gente nova. Cabeça de gente nova. Essas coisas.
- E o oito vira nove?
- Nêgo supõe que sim, que rola uma progressão nisso. O oito vira nove quando está completo. Qualquer número vira outro quando tá completo. Ele tem um ciclo, sabe? Acho que todos têm um ciclo. Mas também rola do oito virar cinco. É aquele nosso conhecido "Vamos dar um tempo?". hahaha
- Pois é. Legal, então o dez é o fim, tipo: casou morreu?
- E não é? Hahaha, sacanagem. Talvez o fim daquele ciclo. Como namoro geralmente termina em noivado que termina em casamento que termina em...
- Divórcio.
- Eu ia dizer filhos. Porque aí sim o divórcio ferra legal com a gente.
- Ou com a cabeça da criança.
- Mas ninguém casa com a pretensão ou expectativa de separar. Pelo menos não devia. Eu acho. Vai saber, né? 

- Agora fiquei curioso aqui, e as cartas altas? Valete, dama, rei, rainha, coringa.
- Valete é o solteirão, sa coé? Aquele maluco com grana, solteiro, sedutor. Aí entra o naipe. Valete de espada é o solteirão pegador, aquele que não é solteiro convicto, é quase invicto! O de ouros é o playboy, ricaço, do programa caro, do carrão. De paus é o tarado, esse daí não tem como namorar. A não ser mulher bem otária mesmo. O de copas é o perfeccionista, tá sozinho porque escolhe demais, cheio de mania, todo romântico e exigente. Esse sofre, coitado. Ainda mais no Rio, onde a fauna feminina é sensível e calorosa que nem iceberg. 
- Tá pessimista, hoje hein!
- Errar é inevitável, eu prefiro errar sendo pessimista.
- E o resto?
- A dama é a que está esperando. Ela pode esperar juntando grana, comprando apartamento, aí é de ouros. Ela pode esperar na janela, deixando a trança crescer pra tacar pro príncipe, são as mais exigentes, as mais pentelhas, eu acho. Mas não tem muito disso por aqui, das de copas. Tem as ninfo também, estilo femme fatale, saca? São as de espadas. Difíceis de segurar. Tipo neguinho viciado em novidade. As de paus são aquelas que só te querem se tu é um cara estável, com emprego, família, projeto, tudo nos conformes, o lance delas é o cara "próspero".
- Tá filósofo hoje. Vamo indo? Me conta o resto no carro. Antônio! Fecha pra gente? Obrigado. Então, e os Reis e Rainhas?
- Ah, esses são raros. Sabe aquele grande amor? Pois é. Tua Rainha. O lance é que você pode passar a vida procurando e não achar a pessoa que te entende no olhar, saca teu humor pelo tom da tua voz, tem aquele lance de pele que você não explica - mas o cheiro dela te deixa de pau duro e tá tudo certo - a pessoa que te observa e te respeita, te compreende e te acompanha e, mesmo assim, ainda vive a vida dela, tem os momentos dela, as idéias que só ela sabe, os projetos pessoais, sabe que tanto é maneiro conversar sobre a relação quanto às vezes o bom mesmo é calar a boca e dar um abraço. Sabe aquela pessoa filha da puta que te cala com um beijo na hora certa? É... e sai te deixando mordendo os lábios e pensando: "caralho, é ela". O lance é que no fundo todo mundo quer uma Rainha, mas ninguém quer o ônus de ser Rei. Porque só um cara fodão mesmo pra manter uma dessas. Dessas que te dão tudo o que você quer e exigem, com o olhar, com um toque, com gestos, com sorrisos e sinais, exatamente a mesma coisa de volta. Conviver com o que a gente quer é um inferno! Ser humano é um bichinho egocêntrico e vadio. Difícil pra gente enxergar o outro como outro, mais difícil ainda viver o outro, quase impossível deixar te enxergar o... cacete, se quer que eu entre então abre a porta... que que eu tava falando mermo?
- Da dificuldade de conviver com as Rainhas.
- É, pois é. Querer a Rainnha é mole, foda é ser Rei, cumpadi. Quando as meninas falam pra gente que tá faltando homem, tem umas que acham que tá faltando homem mesmo, mas a maior parte fala que tá faltando Rei. Que príncipe é coisa de adolescente.
- Agora eu quero saber só uma coisa.
- Fala.
- Onde é que você se coloca nisso tudo?
- Então... sabe o coringa?

Conto e receita: ®Ҝ

9 comentários:

Adriana disse...

Muito bom!!! Vc estava inspirado hein!!! rsrs

Celia Marli disse...

Gato, o conto tá muito engraçado! A simbologia dos números perfeita, a parte que descreve os personagens dos 4 elementos tá bem enquadrado em suas respectivas características. Mas vc colocou personagem demais aí nesse baralho ... pagem e valete é a mesma coisa e as damas e rainhas tb e as cartas da corte não são numeradas .... portanto o pagem não é o nº 2 ... eu não sei se vc usou essa duplicidade pra enriquecer o texto ... eu penso que foi isso!
Obs.: O texto me fez lembrar da minha professora de Tarô que jogava baralho cigano num bar bebendo com os amigos!
Beijo carinhoso ... Celia

Renato Kress disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Celia Marli disse...

Bem, eu não me interesso pelo baralho comum ... mas antes de escrever o comentário fui averiguar e no meu baralho comum tem valete, dama e rei ... agora q eu percebi q ñ tem rainha .... mas no tarô sim tem a rainha e o pagem. O personagem misturou tarô c/ baralho comum mas tudo bem ... entendi!
Agora quanto a numeração ... se o pagem é o nº 2 ... o que fazemos com o nº2 dos arcanos menores? Vira 3? Não .. ñ precisa explicar! Dos jogos de adivinhação,eu sou fascinada apenas pelo Tarô e as Runas ... mas apenas para autoconhecimento! Bjs

Paloma Alves disse...

Sensata é a loucura dos filosófos... Adorei!

AMANDA disse...

Ótimo!A capacidade intelectual e a simplicidade envolvente do assunto foi indiscritível...não tinha como não querer ir até o final.Adorei!!! Beijos!

Anônimo disse...

Acho q o Rei, esse do qual as mulheres falam, nada mais é do que um Valete q evolui. Que cresce. Assim, é melhor escolher bem o valete com o qual iremos nos envolver... Ainda estou em dúvida se estou mesmo com o de copas. Gostaria q sim.
PS.

Beta disse...

Renato arrasou! mandou muito bem! adoreiiiiii de verdade! beijos beta

Beta disse...

hahahahah, adorei muito! o meu valete é paus com espada, mais concordo q o Rei eh um valete q evolui... amadurece! arrazou lindao! mandou muito bem! beijos beta

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?