quinta-feira, 11 de junho de 2009

Atelier



O cavalete estava ao canto da sala. Mudo. Todo o atelier era um degradê em cores frias. A estética estática das paredes incomodava e eu me perdia em girassóis ambulantes. Havia castelos gemendo torres num coito morte e caos, estrutura em transe estendendo preces tijolares, órbitas globulares cinzas de crianças assistiam pasmas ao tango incendiário entre quatro estátuas: Zeus, Apolo, Afrodite e Eros. Vísceras se contorciam, olhos de crianças cinza tremulavam, Zeus urgia céus, exposto, Apolo flamejava o mundo, Afrodite chorava, dançava e ria, louca, e Eros cortava os pulsos – gilete Hefestos – . Vertejam as vértebras, aorta-se o lírio divino pelos rios do mundo e, na insânia da egonia cósmica Zeus e Apolo se fritam, Afrodite desintegra-se em flor, regada do sangue filial, salgado, viscoso e vil, degenera e morre. De seu reino submerso Eu-Hades sento no sofá, coço o saco, pego uma latinha e ponho no Animal Planet.

Conto e receita: ®Ҝ

Um comentário:

Horizonte disse...

Gosto quando vc abstrai e quando se poetisa escrevendo um conto, e, de certa forma,essa subida ao céu que dou enquanto leio,me proporciona quedas diferentes quando te percebo voltando à realidade. Não gosto do final desse terceiro texto apenas pq vc voltou à realidade com ele. O vôo me é mais atrativo até o penúltimo parágrafo. Até ali, eu subi com as palavras. Talvez fosse mesmo tua intenção lançar o leitor à poltrona ao final. não sei. mas funciona. Ainda assim, prefiro voar.

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?