quarta-feira, 1 de julho de 2009

Espelhos



Pedro viu Rafael arrastando o espelho da porta do armário para cima. Rafael andava meio estranho de noite, inquieto, calado. Havia comprado um binóculo há duas semanas e ficava, no escuro, observando uma vizinha do outro lado da rua que havia comprado uma esteira e corria, todas as noites, às nove horas, perto da janela.

Pedro via Rafael na varanda, deitado na rede, de binóculo, ou no quarto ajoelhado por trás das cortinas. Pensava que a vizinha iria aposentar a tal esteira: "Ninguém compra isso e realmente usa por muito tempo, já já vira cabide." Bem, Rafael estava arrastando o espelho da porta do armário para cima. Pedro não resistiu: "Quer ajuda seu maluco?", "Se você quiser me ajudar"...

Puseram aquele espelho de pouco mais de um metro e meio de altura em pé, fora da porta. Sequer era pesado, o trabalho ficava por conta da fragilidade mesmo do objeto. Pedro desceu para jantar na rua, dia de feijoada na Adega do Juca.

Rafael abriu as cortinas, acendeu a luz - coisas que não fazia, no quarto, há algum tempo - observou nitidamente a janela da vizinha. Ela ainda não estava lá. Olhando fixamente numa linha reta imaginária entre a janela dele e a janela dela, marcou com um giz, no chão, um espaço. Havia um espelho, ao lado da esteira dela, do lado de fora da porta do armário. Correu para o outro quarto. Pegou o espelho com cuidado, trouxe desviando dos batentes das portas, aquela fina liga metálica envidraçada e colocou na parede. Não ficaria reto. Cairia para a frente. Colocou inclinado, mas, com receio do espelho deslizar para frente, tirou os tênis e deixou no chão, em frente a ele.

Às cinco para as nove ela chegou, tirou a blusa, ficou de top e calça de ginástica e começou a andar na esteira, Rafael só via seu lado esquerdo. As luzes todas acesas, Rafael virou para trás e viu o reflexo andarilho da vizinha e seus longos cabelos negros. Aproximou-se, de lado, nunca em linha reta - não poderia tapar o reflexo dela - do espelho e, beijou-o, acariciou com o dedo mindinho o reflexo diminuto dos cabelos dela. E voltou para a janela, e correu para o espelho. Perdeu-se naquele enamorar até que decidiu ir além. Aquilo tudo era ridículo demais e o fato de seu irmão parecer se divertir com a situação já estava dando nos nervos. Olhando para ela, através do espelho, foi tirando seus joelhos do chão lentamente, apoiando-se nos calcanhares. Foi quando a vizinha olhou - não havia dúvidas, ela olhou - nitidamente para dentro dos olhos de Rafael através do reflexo, daquele ridiculamente pequeno reflexo, Pedro abriu a porta do quarto de sopetão dizendo que nunca mais descia pra feijoada por um motivo idiota qualquer, Rafael, sobre os calcanhares, se desequilibrou, abriu os braços, caiu para frente.

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Quer dizer que a senhorita não sabe como a cabeça do seu vizinho veio parar no seu quarto? E o senhor também não entendeu como encontrou seu irmão decapitado no chão do quarto em cima de um espelho quebrado? Então os senhores por favor me acompanhem que vamo ter que conversar isso lá na DP.

Receita e Conto: ®Ҝ

2 comentários:

AMANDA disse...

Meus olhos ficaram vidrados e atentos desde o início.Imaginava q tinha alguma coisa por trás daquele espelho.Minha atenção ficou cada vez mais presa e quiz ler até o final.Parecia um filme de suspense,eu viajei e pensei até q se tratava de uma assombração,pra mim a mulher estava morta e no final fiquei totalmente surpreendida.Foi além da minha imaginação.O q eu achava q era uma "fantasia" se tornou algo real com esse final trágico.Mente brilhante essa sua Renato.Escreva mais...escreva mais!Parabéns!Adorei!

tati disse...

Adorei!final surpreendente!

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?