quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mãe




O leite do meu seio é magma, o leito, do meu sono, é água. Participo de um equilíbrio delicado, tenho nomes e meus nomes tem camadas, como a forma pela qual me entendem meus filhos. Se me arrebatam a roupa de cama, remexo, sinto frio, suo, tremo. Se me perfuram a carne em demasia escorre do meu ventre o que escorre dos seus, minha seiva, meu sangue, minha vida.
Gaia, mesmo nos códigos que vocês inventam, esquecem depois seus significados. Vivem rodeados dela. Seja onde pisam, onde moram, o que respiram, comem, digerem, desejam, onde morrem e o que se tornam sempre: matéria. Lembro de quando descobriram a palavra matéria, vinha de Mater, Matris, “Mãe”. Porque certas palavras não se criam, certas palavras se sentem.
Erda, sou a anciã que sustenta teus saltos mais mirabolantes, tuas acrobacias e invencionices. Sou a senhora complacente e submissa, que recebe os castigos malcriados dos filhos imaturos. Sou a firmeza calma e duradoura. Além de ser suas bases, sei de algo que não sabem aceitar: eu fico, vocês passam. Antes de vocês houve outros e depois os haverá, tão cedo que nunca se lembrarão, tão tarde que nunca conhecerão. Ainda assim, os amo e nutro, como únicos.
Geb, sou universal, primordial, essencial. Sou fecundada pela água que sai de mim mesma. Minha língua é um sistema que se equilibra sozinho e eu tenho algumas eternidades para me equilibrar. Mesmo que eu tivesse pressa, vocês nunca notariam. Suas idéias, pensamentos, seus mais puros ou devassos sonhos são piscares dos olhos de seus próprios deuses, cada um dos quais precisou de um solo para erguer suas sinagogas e catedrais... e eu os doei com tanta alegria!
Porque tenho um carinho especial pelas formas como resvalam em mim sem me perceber. Ninguém pode vir ao mundo sem passar por mim, ninguém pode ver a luz se não por mim. E vocês me procuram em tantos lugares incríveis, e vocês me projetam a alturas indizíveis. De alguma forma não cabe a vocês – ainda – perceber que eu possa estar abaixo da planta de seus pés e ainda assim palpitar dentro do seu peito saída diretamente de uma alga. Porque eu sou mais singela do que vocês imaginam e vos acaricio por inteiro, não importa o que vocês façam, não importa onde vocês vão, eu estarei lá, eu serei lá.
Procuram meu centro em tantos espaços, terras santas, bem aventuradas, centros do mundo. No meu centro mesmo não podem viver, e já bem o conhecem, mas podem fazer de qualquer espaço meu um centro. Não sou mais eu aqui do que lá, mas sinceramente? Gostaria que fizessem de si mesmos centros sagrados. Porque eu vou ficar aqui, mas me dói ver vocês partindo tão cedo.
Conto e Receita: Renato Kress

13 comentários:

Bruna Marques disse...

Vc esta hj sempre presente..de dia...de tarde..de noite ou na madrugada...sempre me fazendo sorrir..eh engraçado, inteligente, educado e td mais...se tem defeitos eu não sei, mas tem tantas qualidades que os defeitos se anulam...INTELECTUAL AO EXTREMO rsrsrs..queria ter 10% da sua inteligência.. sempre venho aqui ler um conto, mas nunca deixei comentário, esse fiz questão de fazer: AMEIIIIIII..SIMPLES ASSIM!!! bjsssssssss

Cristiane Melo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiane Melo disse...

Eu tenho um casal de filhos e todos dois estão doentes.
Cada dia estamos mais juntos, pois antes trabalhava e não tinha tempo para eles.
Hoje vejo o que já perdi e o que tenho a ganhar.
Seu conto retrata que mesmo longe uma mãe sempre terá o cuidado da que esta mais próxima. Independente,mãe nunca deixa um filho desamparado e mesmo quando ainda é uma sementinha já temos um amor tão grande e tudo que vc descreveu parece que vc sente ou até mesmo viveu isso.
Esse sentimento de amor por um filho.

Mirian disse...

Está lindo!
Adorei mesmo!

Continuarei lendo seu blog.

Beijos!

Maria luisa disse...

Já esta pronto pra ser "mãe"...rsrs,brincadeira...mas cm certeza somente um homem cm sentimentos assim, poderia se tornar pai...adorei!Bjs no moço lindo!

Henrique disse...

Adorei Tio!
Mt bom!
Queria ter comentado aquele outro!
Saudades!

Bjs!

*ANINH@ PAULA* disse...

Tb adoreiiiiiiiii....mto lindo ...e minha mae idem..ela leu mas nao sabe deixar comentario amigo!kkk...bjooooooo da sua irmazinha..

ânja disse...

P-e-r-f-e-i-t-o!
Viva a mãe terra... é uma
mãe necessária viva, inda que seus filhos morram e renasçam... boa sementes foram semeadas... por ti,
por nós, nossos filhos...
Bem legal...

ânja disse...

postei no FacebooK!

http://www.facebook.com/profile.php?id=100000550500079&ref=sgm#!/profile.php?id=100000841926521&ref=profile

Judy Almeida disse...

...ela o devorou, mas com toda a singeleza necessária para perceber a delícia do que ele escreveu.
Ela também acha triste, vê-los passando, e não vivendo, acha triste que eles não tenham a consciência de suas própias dádivas.
Beijo nele.

Adriana disse...

Simplesmente lindo!! Tamanha sensibilidade, forma inteligente de colocar cada palavra, só poderia vir de vc Re. Amei
Bjo

Wanessa Rigone disse...

As vezes fico me perguntando:Como pode uma pessoa ter tantas qualidades assim?Renato você além de ser um rapaz lindo por dentro e por fora,você tem uma inteligência espetacular.Adorei os contos,você usou toda a sua criatividade e arrasou!Beijos meu lindo e Parabéns!

med.michele disse...

SIMPLESMENTE APAIXONANTE!!!

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?