quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Descobertas

Pai, pai, entendi. Tava vendo TV e entendi porque a gente reza. É porque às vezes a vida da gente não se explica! Por isso! Fica entre a gente, pai, mas eu acho todo mundo reza pro mesmo Papai-do-Céu. Tava vendo na TV as pessoas rezando no mundo. Não sei se eles entendem, mas é o mesmo Papai-do-Céu. Claro que é!

Senta aqui que eu vou te explicar, pai. Eu posso até rezar todo dia antes de dormir, como a mamãe manda, mas no fundo só vou rezar mesmo quando tiver perdido uma coisa muito muito especial. Ou quando eu achar que tiver. E quando essa coisa especial estiver perdida, aí sim eu vou rezar de verdade. E olha que legal, pai: quando eu rezar vou juntar as mãos. Aquele menino com a cabeça engraçada, o Murad, nosso vizinho, vai rezar se ajoelhando num tapete com o pai dele e um outro cara, lá do outro lado do mundo, vestido de toalha, vai rezar meio que sentado na posição do indiozinho. Na verdade nem importa muito pai, porque quando eu juntar as mãos meu corpo vai estar igualzinho pra lá e pra cá, quando o Murad se ajoelhar, o corpo dele vai estar igualzinho dos dois lados, e o outro cara, do outro lado do mundo, também! É que eu tava vendo só a metade da tela da TV, brincando com o espelho da mamãe e descobri! Olha que legal! Se você passar um espelho em pé pelo meio do corpo de qualquer um rezando, no mundo inteiro, vai encontrar dois lados iguais. O legal é que eu nem notava o espelho e quando ia pro lado, pra ver a tela inteira, dava no mesmo. Era como se não tivesse espelho ali!

Aí eu pensei na coisa de nos livrar do mal que a mamãe ensinou a rezar. Nem acho que a gente queira se livrar do mal. Mamãe às vezes faz o mal pra mim e diz que é pro meu bem. Muito estranho isso porque ela diz que é pro meu bem e eu sei que dói e me faz mal. Daí fiquei pensando que as coisas tem seu bem e seu mal e às vezes a gente só vê um lado e se chateia por isso. Mas acho que não estamos rezando por medo do mal. Tem gente que quer o mal dos outros e reza. Já vi a tia na escola fazendo isso. Tem gente que reza pedindo o mal pra si mesmo, como quando a tia Nazinha pediu pra Deus pra ficar doente no seu lugar. Nem acho que rezamos para nos defender do mal. O mal acontece.

Acho que a gente reza porque tem coisa que não tem jeito mesmo. Outro dia mamãe estava fazendo saladinha pra mim e eu perguntei porque Papai-do-Céu levou o senhor pra longe da gente. Mamãe sempre dizia que era porque ele estava com saudades e que vocês estavam conversando lá no céu e cuidando da gente, mas dessa vez ela chorou muito sabe? Achei que tinha se cortado com a faca e fui lá abraçar ela e ela me abraçou de volta e disse que não sabia, que não sabia porque o Papai-do-Céu tinha levado o senhor. Logo depois ela me colocou na cama e ficamos conversando com Papai-do-Céu e com o senhor, lembra? Então, foi daí que fiquei pensando, a gente reza porque tem coisa que não faz o menor sentido! Eu sei que ela não sabe porque o senhor foi embora e sei que ela fica muito triste quando pergunto, mas quando vejo já perguntei. Um dia vou falar pra mamãe que descobri porque a gente reza: é que a gente é que precisa ter força da gente mesmo pra dar um sentido pra essas coisas, né? Bem, eu acho que é.

Pai, a mamãe está vindo aí pra irmos embora, semana que vem a gente conversa mais.

Conto e Receita: Renato Kress

8 comentários:

Mary disse...

Leonino, saudades!!!
Se o magnânimo quiser aparecer: me envie um e-mail, rs.
Beijocas

AMGS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda disse...

Sabe o que acho interessante em seus contos Renato? É que o final dele sempre me surpreende de alguma forma. Fico presa na estória que me faz viajar nela sem saber como será o fim. Acho isso interessante pois vc ñ desvenda de imediato em que fim o conto vai chegar, isso prende a atenção do leitor e o melhor de tudo é que os finais sempre são muito interessantes.
O Blog vai virar livro. Quem sabe futuramente não vire filmes, séries?!

AMGS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renato Kress ®Ҝ disse...

Filmes eu não tenho essa pretensão, mas porque não curtas-metragens? Adoraria

Anônimo disse...

Adorei!!! Esse foi de todos o meu favorito! Parabens! BJS!
Paula

Mariana disse...

esse mundo do faz de conta, do mundo interior infantil e de tornar o invisível e o "impossível" palpável, ou pelo menos um pouco menos abstrato, mais mágico, e plausível é fantástico. Fascina as mentes dos adultos pelo simples fato de que se evidencia o grande potencial infantil. Pequenos anjos em corpos humanos, incorporam personagens como Descartes, Nietzche e tantos outros pensadores e personagens da história da humanidade da religião e da filosofia. E o mais incrível, estas crianças interiorizam tais personagens sem se darem conta de que o fazem. São seres inocentes, mas, não alienados. Uma conexão anímica e divina as conectam com o sagrado, com um centro. E então caro Renato Kress, me lembro do que vc sempre diz sobre o gesto de união com as duas palmas da mão, quando se refere as religiões do mundo. Namastê ;)

Mariana Junqueira disse...

esse mundo do faz de conta, do mundo interior infantil e de tornar o invisível e o "impossível" palpável, ou pelo menos um pouco menos abstrato, mais mágico, e plausível é fantástico. Fascina as mentes dos adultos pelo simples fato de que se evidencia o grande potencial infantil. Pequenos anjos em corpos humanos, incorporam personagens como Descartes, Nietzche e tantos outros pensadores e personagens da história da humanidade da religião e da filosofia. E o mais incrível, estas crianças interiorizam tais personagens sem se darem conta de que o fazem. São seres inocentes, mas, não alienados. Uma conexão anímica e divina as conectam com o sagrado, com um centro. E então caro Renato Kress, me lembro do que vc sempre diz sobre o gesto de união com as duas palmas da mão, quando se refere as religiões do mundo. Namastê ;)

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?