quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Cartas de amor




Hoje eu escrevi mais uma carta na areia. Queria que chovesse. Deviam estar uns 40 graus. E talvez ela soubesse da carta. O que me deixou rubro. Não sei onde foram as sementes. Eu as trouxe para plantá-las aqui. Onde morram. Nada nasce da desolação desse deserto. Talvez seja onde eu consiga parir certas letras, nem tudo é tão doce como outrora. Há um monstro vil lá fora, tão minuciosamente sádico e umbralino que só pôde visitar-me após todos os seus filhos, desgraças do mundo, terem preenchido o vácuo de perfeição que assolara o planeta, o apocalipse no fim da caixa de Pandora, a esperança. Gota amarga de memória cauterizando eternamente a ferida, o membro decepado, a inexpressividade cáustica da sub-vida cotidiana. Lenta morte irônica e lânguida, fascinando auroras, rasgando pores de sol sob uma cortina de lágrimas. Lágrimas e sementes sobre um solo inútil, sobre uma carta de areia ao vento, à decomposição da memória, das histórias, do amor.

Conto e Receita: Renato Kress

3 comentários:

Malu disse...

Apesar de todas as angústias e sentimentos profundamente doloridos, tenho certeza que ela gostaria de ter recebido a tua carta, pois nada mais revelaste nas areias do que os conflitos interiores que queria que as ondas para ela levasse...
Talvez ela pudesse alentar os desencantos e desesperanças da VIDA.
Um abraço

Iguimarães disse...

Uma carta sem destino final.
Com certeza feita com o "amor total" já dizia Vinícius.
Há pessoas que não são dignas de um valor tão intenso como uma carta feito com tanta dor.
Um abraço

Horizonte disse...

Sou bastante auto-destrutiva, é fato. Gosto bastante deste texto! Há tempos não passava por aqui... bj.

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?