domingo, 25 de abril de 2010

Carta a um sobrinho




Oi Henrique,

Aqui é o seu tio Renato, tudo bem? Espero que sim. Tenho visto suas fotos das apresentações do teatro e estou vendo que terei que ligar do Ziembinsky e perguntar dos elencos das peças para poder ver algo seu. Para não dizer que não tem meus telefones, segue junto com essa carta um cartão com todos eles, inclusive meu endereço, caso me dê a honra de responder a essa singela cartinha.

Me disseram que anda interessado em mitos. Provavelmente por mitologia grega, que é o caminho natural quando a gente começa a se interessar pelo assunto. Eu resolvi te escrever um pouco sobre isso e espero que goste do que vai ler nas próximas páginas. Vou tentar descrever uma história que contei para alunos meus num curso em que eu usei mitologia grega como base. Espero que você goste.

O Fio do destino

De Zeus a Helena

Vou te contar uma historinha diferente, algo que eu sei que não vai encontrar nos livros que eu pretendo te dar em breve. Vamos ver... que tal saber como Zeus gerou a maior guerra do mundo grego para poder se livrar de um “probleminha” familiar dele?

Na verdade tudo começa no Kaos (ou Cáos) uma divindade bem lá de trás, antes mesmo do tempo e até mesmo do espaço existirem. Kaos é uma bagunça só. Na verdade ele é tudo misturado e sem forma, como as suas roupas no cesto antes de lavar, só que pior, como se elas estivessem costuradas umas nas outras e misturadas com as dos seus irmãos e misturadas com perfumes, jogos de Playstation, cabelo velho, perna de barata, pedacinho de feijão no dente e tudo o mais que você puder imaginar.

Acontece que na mitologia Kaos era isso. Era tudo misturado, sem diferença, sem distinção, sem sentido (mais ou menos como turistas japoneses ou o noticiário da TV). Um dia Kaos se sentiu isolado, carente e sozinho (dizem que ele estava tentando coçar as próprias costas, mas, na bagunça, não achava nem o coçador nem a própria mão e quando achou uma mão não tinha bem certeza de que era sua) e, então, pra se livrar da coceira, juntou toda a matéria num único ponto, que chamou de Gaia.

Gaia era toda a matéria condensada num pontinho que se separou de Kaos. Ela precisava se separar para coçar as costas dele, lembra? Mas à medida que ela ia coçando, ele - que era tudo e era bagunça - foi se arrumando em Gaia e não-Gaia, em bagunça e não-bagunça, até que desapareceu.

Gaia, que passou três eternidades, dois infinitos e meio “para sempre” coçando as costas de Kaos até que ele desaparecesse, finalmente respirou aliviada. Do suspiro profundo saído dos pulmões primordiais de Gaia saiu Úrano (não, não é urina, é sopro e se chamava Úrano, com acento no “u”) e Úrano se espreguiçou por todo o espaço possível, criando, junto com Gaia, o que os antigos contadores dessa história chamavam de Kosmos (“ordem”). Antes com Kaos era uma bagunça generalizada: mosquitos comiam dinossauros que tinham patas de caranguejo enquanto hipopótamos azuis dançavam com igrejas cantantes.

Úrano e Gaia se olharam e se acharam assim... engraçados. Ela toda feita de matéria, toda terra, toda árvore, metal e pedra; Ele todo feito de ar, sopro, vento, idéias. Então casaram e tiveram muitos e muitos filhos, todos deuses. Mas com receio de que algum filho pudesse destroná-lo de seu lugar como rei dos deuses, Úrano não deixava que Gaia desse à luz os deuses que se avolumavam em sua barriga. A deusa terra foi ficando cada vez mais inchada, roliça, rotunda, parecia uma bola de praia.

Um dia, cheia de dores, ela disse aos seus filhos – todos cada vez mais amontoados e sufocados dentro de seu ventre:

- Aaaaah!!! Essa agonia está me matando! Minha pele está esgarçada, meu corpo inteiro dói e meu umbigo parece um vulcão! Aquele entre vocês que conseguir me livrar da tirania de seu pai Úrano, será o novo rei dos deuses. Qual dentre vocês vai me livrar dessa dor?

Dentro de Gaia haviam três gerações de divindades que ouviam seu discurso: os três Cíclopes - Arges, Estérope e Brontes -, mestres do raio, do trovão e das tempestades, os três Hecatônquiros – Coto Briareu e Gias -, os maiores de todos, gigantescas criaturas com cem braços e cem olhos e, por último, a geração dos doze Titãs, seis homens – Oceano, Ceos, Crio, Hipérion, Jápeto e Crono – e seis mulheres – Téia, Réia, Febe, Mnemosina e Tétis .

Não se sabe ao certo se o mais novo entre as três gerações de divindades dentro de Gaia foi o mais ávido pelo poder ou se simplesmente não teve forças para se esconder atrás dos irmãos quando todos, amedrontados, se acotovelaram para dentro de Gaia, com medo de uma punição do Pai todo-poderoso Úrano, Senhor dos Céus. O fato foi que Gaia entendeu que seu caçula Crono, deus do tempo, era aquele destinado a vingar a mãe pela crueldade do pai, que não deixava que ele e seus irmãos nascessem. A mãe terra deu então a seu filho vingador uma foice feita do “leite do seu seio”, na verdade uma foice criada pelo metal líquido que corre nas entranhas do planeta, e, com essa foice, Cronos foi instruído a subir por uma nuvem até o espaço em que poderia avistar alguma parte de seu pai.

Não demorou muito para que Úrano viesse, como sempre, visitar Gaia e esta, sem muita opção mas tramando em segredo, deixou que ele entrasse. Assim que Úrano chegou, Crono se adiantou e, com a foice, castrou seu pai que, num urro grotesco que se confundiu com as vibrações do universo por milhares de anos, ecoou avassalador ensurdecendo toda a realidade por aquele momento. Ao se afastar, sangrando, Úrano lançou a seguinte maldição:

- Serás destronado e destruído pelo mais jovem entre os seus!

Crono sabia muito bem que, a partir de agora, deveria temer, acima de tudo, seus filhos. Sendo assim libertou todos os seus irmãos titãs, menos aos Hecatônquiros e aos Ciclopes, irmãos mais velhos que ele sempre temeu. Os titãs casaram entre si e tiveram várias outras divindades, sobrinhos de Cronos que casou com Réia, uma de suas irmãs.

Por causa da maldição de seu pai Úrano, Cronos temia muito que qualquer filho seu viesse a crescer para lhe derrotar ou tomar seu lugar. Então pedia a sua esposa Réia que, assim que nascesse qualquer um de seus filhos, o entregasse para que ele pudesse... criar a criança. Na verdade ele engolia os bebês e dizia para Réia que “em breve” ela os veria de novo. Depois de um tempo, claro, a deusa regente do mundo começou a estranhar o sumiço dos bebês e a criar um ressentimento muito grande do poderoso rei dos deuses, seu marido.

Depois de um tempo ela engravidou de seu sexto filho, Zeus. Cansada de dar seus filhos para que Crono desaparecesse com eles, escondeu o pequeno Zeus numa caverna na ilha de Creta e deu a Crono uma pedra enrolada com línguas de animais para que ele as comesse. Crono não estranhou e engoliu rapidamente o que achava que era o pequeno Zeus.

Zeus cresceu numa caverna na Ilha de Creta e foi criado por sua avó Gaia e por uma cabra chamada Amaltéia, mas essa é uma outra história que contarei a você um outro dia. O fato é que Zeus cresceu o suficiente para batalhar com seu pai Crono, conseguiu fazer com que ele vomitasse seus irmãos engolidos e, junto com eles, libertou os Hecatônquiros e os Ciclopes unindo forças contra seu pai e seus tios, da geração dos Titãs. Foi uma batalha horrível, que modificou todo o solo do mundo, criou e devastou montanhas, desviou cursos de rios e criou explosões oceânicas enquanto o céu bradava. Os titãs sobre o monte Ida e os olímpicos receberam seus nomes justamente por estarem localizados sobre o monte Olimpo, bem no centro da Grécia. Sobre essa batalha podemos conversar mais à frente, o fato é que os Olímpicos venceram e Zeus, cumprindo a profecia de seu avô Úrano, destronou seu pai Crono e tornou-se o novo rei dos deuses.

Muito tempo se passou e Zeus, estabilizado no poder e depois de ter dividido o universo entre três camadas sobre as quais ele reinava supremo, desentendeu-se com seu primo Prometeu, por este ter roubado o fogo sagrado dos deuses e levado para os homens, para que eles se abrigassem no frio, cozinhassem e pudessem dormir de noite sem medo de serem atacados por animais selvagens. Zeus havia tirado o fogo dos homens por medo de que eles adquirissem poder suficiente um dia para destroná-lo. Ao contrário de seu avô e de seu pai, Zeus não engolia seus filhos, mas sempre fez questão de ser um ótimo pai, amigo e companheiro de seus filhos, para que nenhum deles quisesse se virar contra ele. De qualquer forma Zeus prendeu seu primo Prometeu no monte Cáucaso onde ele ficou de cabeça para baixo tendo seu fígado comido eternamente por uma águia. O fígado de Prometeu se regenerava toda noite e, assim, ele ficaria sofrendo para todo o sempre, não fosse o fato de Prometeu ser um deus que conhecia a “Mântica”, a arte da adivinhação, e, por isso, sabia de um segredo que muito importava ao rei dos deuses: Como e quando ele iria ser deposto!

Zeus havia jurado a Prometeu que ele nunca se veria livre da punição por ter dado o fogo aos homens, que estaria “ligado ao monte Cáucaso para sempre”. Então não poderia libertá-lo e, sem essa liberdade, seu primo também não diria quem, como e principalmente quando Zeus seria destronado. O deus dos deuses estava completamente encurralado por sua própria palavra. Não poderia libertar Prometeu porque a palavra de Zeus não volta atrás, e sem voltar atrás não poderia saber como impedir que um filho seu pudesse tomar seu lugar, como fizeram seu pai e ele mesmo. Chamou Hermes, um de seus filhos e deus dos mercadores, da comunicação e dos ladrões para persuadir Prometeu.

Seguiu-se uma terrível discussão em que Prometeu, usando da sua polymetes (astúcia, inteligência ligada à prudência) reverte todos os argumentos de Hermes lhe mostrando que, por ser patrono dos mercadores e ladrão desde o nascimento, o deus de pés alados não poderia compreender que Prometeu não estaria interessado em ‘ganhar’ qualquer coisa com aquela discussão e nem Hermes teria qualquer autoridade para acusá-lo de ladrão, pois como Prometeu “roubou” o fogo de Zeus para dá-lo aos humanos, Hermes, assim que nasceu, roubou os bois de seu irmão Apolo. Hermes voltou a Zeus de mãos abanando, apenas para ouvir o trovão na voz de seu pai, expulsando ele para longe, irritado com a falta de habilidade do deus da comunicação e da lábia.

Muito tempo depois Hércules libertou Prometeu do monte Cáucaso e, para não desobedecer a seu pai Zeus, deixou que uma das correntes que prendiam ao poderoso deus pelos pés ficasse presa, quebrando apenas uma parte da montanha. Dessa forma Prometeu ficou para sempre preso a um pedaço do monte, e, liberto do castigo de Zeus, disse a Hércules que Tétis – uma deusa do mar, filha do Titã Oceano – estava fadada a ter um filho cem vezes mais poderoso que o pai e este, com certeza, poderia destroná-lo e matá-lo. A essa época Zeus estava cortejando Tétis quando foi avisado por Hércules. Zeus então desistiu imediatamente de estar com ela e obrigou a deusa do mar a casar com um mortal que, mesmo que fosse cem vezes mais poderoso, nunca chegaria aos pés de Zeus. Porque mesmo que Tétis viesse a se casar com outro deus, seu filho, cem vezes mais forte que o próprio pai, ainda poderia dar problemas no Olimpo.

Zeus arranjou para que Tétis casasse com Peleu, um rei grego, e desse casamento nasceu Aquiles, o maior dos heróis da Grécia. Cem vezes melhor que seu pai, mais forte, mais rápido, mais habilidoso do que qualquer ser humano e melhor do que qualquer um dos Heróis gregos de sua época, Aquiles foi o maior herói grego de seu tempo.

Ao casamento de Tétis e Peleu foram convidadas todas as divindades do Olimpo, menos Éris, a deusa da discórdia. Afinal, quem quer a discórdia numa festa de casamento? Bem, no dia da festa Atena - deusa da inteligência, justiça e estratégia – Hera – esposa de Zeus, deusa do poder, da família e do casamento – e Afrodite – deusa do amor, da sensualidade e da sedução – estavam conversando juntas. Éris jogou entre elas uma maçã de ouro em que estava escrito “para a mais bela”. As três deusas correram para Zeus, para que ele decidisse a quem pertencia a maçã, qual delas era a mais bela. Zeus, esperto que é, não poderia escolher entre duas filhas e sua esposa e disse a elas que o príncipe Páris, de Tróia, era o mais justo entre os homens e ele poderia facilmente decidir a quem pertencia a maçã. Mesmo que Zeus já soubesse que isso não ia dar em boa coisa porque Páris não era nada justo, e, para falar a verdade, havia feito tantas bobagens como príncipe em Tróia que seu pai Príamo havia deixado ele de castigo cuidando dos rebanhos do reino bem longe do palácio. As três deuses tentaram Páris, cada uma a seu modo, subornando-o. Hera ofereceu poder e o reinado sobre o mundo, Atena ofereceu a vitória em todas as batalhas que travasse, a glória e a sabedoria e, por último, Afrodite ofereceu a Páris o amor da mais bela entre as mulheres, Helena.

Claro que Afrodite esqueceu de dizer a Páris que Helena era casada com Menelau, rei da Lacedemônia, território que depois mudou o nome para Esparta, assim como Zeus esqueceu de dizer às três que isso tudo ia dar um problema muito maior, uma guerra tão grande que poucos Heróis gregos sairiam vivos. Mas tudo bem, porque Prometeu esqueceu de dizer também que, depois dessa guerra, a crença na existência de Zeus e de todos os outros deuses seria cada vez menor, até desaparecer por completo... mas essas são outras histórias, para outras cartas.

Conto e Receita: Renato Kress

9 comentários:

Anônimo disse...

Só para saber que sempre te acompanho...
PS: Claro e Sempre.

Anônimo disse...

Adorei...Bj no moço lindo!

Tati disse...

Nossa! Adorei a abordagem!!

Helena disse...

Fazer uma pessoa que não liga para Mitologia ler um conto sobre o assunto -e gostar- não é missão para qualquer um! Parabéns, vc conseguiu! Adorei! Por que será que gostei muito da frase "da mais bela entre as mulheres, Helena"? rsrsrs :)

Omar disse...

Muito bom, quero uma carta à altura dessa!

Henrique disse...

Adorei tio!
E eu to estudando mitologia na escola!
Vo estudar aqui!
HAHAHA!

Bj!

Mara disse...

Adoro Mitolgia, e está maneira que vc a relatou foi maraaavilhosa.

Mara disse...

Adoro Mitolgia, e está maneira que vc a relatou foi maraaavilhosa.

Renato Kress ®Ҝ disse...

Obrigado pelo carinho, Mara! Sinta-se à vontade para curtir o blog e as demais histórias.

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