terça-feira, 23 de março de 2010

"Ela"




- Ah, ôu, na boa! Como vocês acham que deve ser "ela", então?
- Ah, cara, sei lá. Tem que ser linda, dessas que a gente chega em casa e pensa que entrou na casa do vizinho rico e bonitão, sabe?
- Nem acho. Tem que ter aquela sintonia, cumplicidade, companheirismo.
- E ser boa de papo é indispensável. Acho que tô com a Sofia muitas vezes porque gosto da voz dela.
- Tá, a Sofia é a maior gata, nem é só por isso. Se ela não malhasse pacas e trabalhasse contigo você talvez nem desse bola pra voz dela. Pra mim a mulher tem que te seduzir. E tem que ser diário isso.
- É surreal, a sedução cansa, porque é um jogo, cara! Sedução não é meio de vida, é um jogo e se ninguém apita a partida a gente acaba cansando rápido demais. Depois de um tempo você olha pro lado e pensa que se tem sempre que se dar todo aquele trabalhão... no fundo acaba não valendo a pena.
- Teco tem razão... e, na moral? A gente curte um troço meio frenético, pesado, sem discussão, sem desculpa, sem frescura.
- E não é?

E rola mais uma rodada entre aqueles quatro amigos, na beira da praia, um domingo nublado do lado do carrinho de cerveja.

- Falando sério? Depois da Paula eu decidi que mulher tem que ter graça, que a gente tem que rir junto.
- Mas a Paula era a maior mal-humorada, cara.
- Porra, por isso mermo! Imagina ficar dois anos com uma mulher que não dá um sorriso, sempre reclama de tudo. Parecia uma velha, de mal com a vida: "Vai comer esse sorvete? Que horas a gente vai na minha mãe? Achou a menininha bonitinha?". Na moral, vai regular a mãe!
- Mas era gostosa...
- É, uma velha gostosa! Ainda assim uma velha... e com o passar do tempo a gostosa vai embora e você só vai ficar com a velha mesmo. E sabe o pior? Uma velha treinada! Treinou desde os vinte pra ser insuportável aos setenta. No fim de tudo você não consegue nem conversar, até olhar pra cara da pessoa te cansa. No fim das contas eu olhava pra Paula e via uma tabela nutricional e os horários da academia!
- Cara, a conversa tem que fluir, não tem como! Imagina, pode ser a mais deliciosa...
- Tipo aquela ali? Biquini amarelo?
- Não, aquela pode ficar calada que tá tudo certo...

Gargalhada geral e mais uma rodada de cerveja entre os amigos. Os olhos quase atravessam as latas fulminando a morena de amarelo.

- Mas falando sério, a Paula era melhor que essa aí, e não deu pra sustentar.
- Cara, ela se daria bem com um cara parecido com ela, mais caladão ou que não gostasse da vida, reclamasse por esporte. A coisa é você encontrar quem tenha sintonia contigo.
- Tá acreditando em alma gêmea agora, Nathan?
- Não falei em alma gêmea, ler pensamento deve ser bizarro. Imagina, você pensando "preciso largar um barro" e sua alma gêmea ali, dentro da sua cabeça... Cara, o lance é essa sintonia do momento. Porque as pessoas tem fases, nem sempre são as mesmas, e aí a gente tem que estar ligado pra viver aquilo junto ou deixar passar a fase...
- Ou deixar passar a pessoa.
- É... ou isso.
- Esse lance de "ela" não existe! Na boa! Tudo tem começo, meio e fim. Não tem como!
- Mas se a gente está procurando "Ela", no mínimo é porque não quer pensar no fim por agora.
- Ou nem acha que precise ter fim. Nathan mandou bem, a coisa tem fases. Se a gente passar as fases juntos, na sintonia, as coisas vão passando e a gente vai se acertando. As fases começam e terminam e a gente continua junto.
- Na moral? Dificil paca, você sabe, eu sei, qualquer um sabe. Pra isso a mulher tem que ter uns valores parecidos com os teus, e valor é loteria! Não é o tipo de parada que você pega naquela primeira conversa perfeita, num bar com uma vista foda e você só tem vista pro sorriso...
- ...ou pros peitos...
- ...ou pros peitos dela! Mas é isso. Os valores da mulher a gente só saca quando já cansou ou acostumou com o sorriso... e os peitos... dela.
- Mas pra viver junto não tem outra, ou os valores batem ou a gente acaba se batendo! Lembra da Aléxia? Ela não me deixava sair com vocês, queria que eu ficasse em casa estudando e meditando com ela. Cara, meditar domingo?
- Ela não prestava concurso? Tinha que estudar mesmo!
- Acho que nesse caso foi tu não querer ela mesmo. O lance dos estudos...
- ...e meditação!
- ...e meditação só não foram contornados porque você nem tava afim. A menina era meio nerd meio hippie, você não é. Não deu. Paciência.

O silêncio se corta com a mão de Teco que aponta para a beira do mar:
- Mulher tem que ter coxa!
- ...e bunda! Sem bunda não há estabilidade no relacionamento. Como é que se espera de um brasileiro que viva sem bunda dentro de casa?
- Ô, e viva a bundalização geral!

Mais uma rodada. O sol começava a se abrir e a areia pinicava as canelas dos oito pés afundados.

- Sei lá cara, às vezes penso que seria bom dividir a vida com alguém, ter uma pessoa em casa pra te fazer companhia, pra ler, ir no cinema, falar bobagem.
- Pra lavar, passar, cozinhar...
Um tapa no ombro e chute na canela depois
- "Xá" de ser escroto! Na boa, seria bom só ter alguém pra você relaxar junto, sem ter que pensar, que repensar nas palavras, nos atos, até nos teus pensamentos. Se eu não consigo relaxar com uma mulher, não sei pra que serve ficar com ela.
- Verdade.

Foi quando Teco, Nathan e Rafa olharam para o Bruninho. Todo mundo falou alguma coisa, menos o Bruninho. Silêncio geral.

- Que foi?
- Você não falou nada cara!
Bruninho em tom de defesa:
- Concordei que a morena de amarelo era gata!
- E...?
- E é isso.
- Ôu Bruninho! Pera lá! Vai dizer que você não imagina como deve ser a tua "ela", a "Bruninha"?

Bruninho baixou a cabeça pra lata de cerveja, levantou os olhos e encarou fundo os três amigos, coisa de dois segundos para cada um. Deu um sorriso:

- Sinceramente? Na moral mermo?
- É.
- Escrevi uma carta pra Laura outro dia, mas decidi não mandar. Frases soltas, não sou de escrever. Ainda tá no bolso:

"Pensei em sair com você. Tentar algo de verdade. Chamei algumas vezes. Da última você simplesmente foi ríspida. Chamei, cheguei até a insistir. É o que faço quando quero algo, faço o possível. Ir na tua casa tocar tua campainha não ia fazer, nem teu telefone eu tenho mais, perdi com a minha agenda. Sua amiga veio falar comigo. Pensei que poderíamos ainda tentar algo e tentei de leve. Mais uma furada. Agora se quiser sou teu amigo. Conversaremos sempre que você quiser, mas a gente cansa de tentar. Ainda mais quando percebo que a concorrência mexe mais contigo do que eu. Parece não, mas me valorizo. De qualquer forma, se quer voltar pra São Paulo conversa com seus pais, procura apoio, não fique num lugar que não te faz feliz. Na boa. Eu quis continuar nossa história, foi quando percebi que nem sempre tem de haver uma história. E muitas vezes, simplesmente não há."

Eles ficaram se olhando... sem muita certeza do que falar. Foi quando o próprio Bruninho deu uma risadinha e falou:

- Cês viajam! Escolhem demais! Sabe porque eu não vou mandar a carta? Porque não vale a pena. É coisa que a gente escreve até pra si mesmo. Acho que se vocês querem uma "ela", é bom começar a serem o tal "ele". Porque zapear mulher é mole. Ficar lá no controle remoto na night, mudando de boca como quem muda de canal. Seduzir, comer, tudo muito legal, ego vai pro céu e a gente acha que tem a lábia e a pica de platina, mas sinceramente? Mulher é problema como homem é problema porque gente é problema! É uma foda! E se não fosse, como é que ia valer a pena?

Conto e receita: Renato Kress

14 comentários:

Maria Fernanda Meza disse...

Noooooooooooooossa!!
Mandou bem queridão, é isso aí... Putz... como eu queria que pelo menos 20% tivessem essa filosofia rsrss seria tão mais fácil... Beijos,
Nanda

Karina disse...

Simplesmente DiviNO... Adorei :)
Parabéns pela criatividade
bjssss

Malu disse...

Gosto muito das tuas narrativas, Renato.

Aqui então conseguiu delinear vários perfis psicológicos das mulheres e também do próprio homem.

Nossas eternas procuras por um parceiro ideal que por não ser ideal cai no desgaste e gera separações.

Beijinhos,amigo

ânja disse...

texto livre... lido... Boa a velocidade narrativa... gostaria de saber como te inspira pra escrever...
Não é necessário "concordar"... mas é preciso se soltar e deixar correr. Sempre fico com a impressão de que não posso acompanhar o raciocínio... a minha preferida é aquela em que dá tiro...

ânja disse...

olho no olho (a preferida...)

Anônimo disse...

Simplesmente adorei...fica a cada conto mais difícil escolher um como favorito, mas com certeza esse é um de muitos deles...beijinho n moço lindo!

Anônimo disse...

Oi moço, acabou q comentei em anonimato...mas ta lá...bj

Mamãe e Bebê disse...

QUE LINDO AMOR, ADOREI, PARECE QUE ESCREVEU PENSANDO EM MIM, OU SERÁ QUE ESCREVEU PENANDO EM MIM? HUHAUAHUAHA...... Bom, se não foi, ao menos parece... rs... Adorei também a foto do Cafézinho com o desenho da menina.......... Meigo demais mesmo meu lindo...
Te adoro muito

By Clara
E Beijo de Moranguinho da Nossa Pequena...

Marilda disse...

Olá Renato!

Adorei seus contos...muito interessantes mesmo...vou ser sua fã de carteirinha!

Bjinhos

Tati disse...

Sem palavras.. adorei!

Beijo.

Lolô disse...

Muito bom Renato !!!!
Criatividade ao máximo ,quando você escreve sobre o universo masculino,que acaba sendo o muito parecido com o do feminino.Beijos!

Maria disse...

Renato,
Concordo com o último post: sua narrativa foi delineada num contexto masculinizado mas o seu fechamento tem todo um "olhar', um "sentir" de mulher... de pensamento genuinamente feminino.
Beijos virginianos

AMANDA disse...

Essa foi de +!

Penso às vezes que você sabe o segredo e as fórmulas de tudo ou de quase tudo na vida!
Acho que nem deveria se chamar mais de "conto" tudo que vc traduz pra gente...são verdadeiras "estórias" fascinantes que nos trás a vida real, ao nosso cotidiano.

Só me resta diser, parabéns Renato pelo talento, criatividade e capacidade de observar a vida e as coisas da vida!

Ju Minelli disse...

Gostei muito da narrativa, é gostoso ler pequenas filosofias diárias, mas não acredito no "ela" e no "ele".
Acho que isso de ter um parceiro ideal beira a utopia.
Nascemos lendo contos de fadas e o que isso ocasiona é a escravidão da procura pelo "felizes para sempre".
Como alguém poderia ser o "The one" se ma maioria das vezes nem nós sabemos o que queremos? Se mudamos de opinião com o passar dos anos?
Existe um ditado masculino que diz: "Me mostre uma mulher gostosa e te mostrarei um homem cansado de transar com ela".
Quer dizer, não importa quem ela ou ele é, nós sempre buscamos mais, a sedução a longo prazo é cansativa e a novidade atrativa.
Discursos politicamente corretos só funcionam no papel.

OBS: Não é uma crítica, apenas uma opinião sincera.

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?