sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Carta ao filho


Quando olhar os pássaros, se um dia você olhar pra cima, você possa entender como funciona o teu pensamento. Leve, rápido, insano, livre. Que possa entender que é da natureza dele voar, não se fixar, não manter velocidade, altura, contar que a direção do vento e a sua força farão com que quase nunca uma linha reta seja o caminho mais curto entre você e seu desejo.

Quando olhar pro mar, se um dia você olhar pra baixo, você possa sentir o que acontece dentro do teu peito. Denso, lânguido, puro, imundo, reserva de vida. Que possa entender que, de alguma forma, por algum milagre, ele se refaz, reestrutura, busca o equilíbrio. Que ele tem o tempo dele, o tempo de uma batida no peito, o tempo daquela sensação de peso na alma, que precede a leveza.

Quando olhar nas fotos, se um dia você olhar pra parede, você possa ver o quanto tua natureza é humana. Que você é plástico, que muda, mudou e vai mudar. Que você teria sido um aborígene se tivesse nascido na Austrália, um pigmeu, um holandês, um vietcongue, que você seria enorme de gordo, ou muito magro, maior ou menor, mas ainda assim você, e, exatamente por isso, plástico, humano.

Quando olhar pelas ruas, se um dia você olhar ao redor, você possa ter compaixão pelas pessoas que confundem auto-preservação com agressividade e competição e colocam os dois sob o rótulo de "instinto". Que consiga entender que a liberdade não é uma entidade isolada emanando energia desordenada pelo universo, mas que só pode existir abraçada com a responsabilidade pelo tempo.

Quando olhar pra você, se um dia você olhar pra dentro, você possa saber exatamente como se ver: como um agricultor, um caçador ou coletor e esteja em paz com o que vir. Que possa compreender que existem fases para coletar do ambiente ao redor, fases para plantar nossos projetos, sonhos e desejos ou para caçar livremente e que essas fases devem ser vividas ao extremo.

Quando olhar para o mundo, se um dia você olhar por sobre os teus ombros como se saísse do corpo e, da estratosfera, olhasse para baixo, você possa compreender que tudo o que há é sagrado e existe por uma necessidade dinâmica natural ao ser humano. Que precisamos aprender sobre a harmonia que há entre a faixa de Gaza e um monastério nepalês, entre um tapa na cara e um pedido de desculpas, entre um assassino serial e um mártir. Que a vida se processa nessa espécie de equilíbrio dinâmico que é imprescindível para dar forma à plasticidade da natureza humana.

Quando você olhar para mim, se um dia você olhar pro lado (ou para trás...), você possa compreender que fiz o meu melhor, que a minha matéria está se cristalizando e vai quebrar, como a sua e a de seus filhos e netos, e você possa ter a grata certeza de que não me ama ou considera mais por isso, mas porque eu tive o prazer de te amar desde o dia em que te fiz. 

Conto e receita: ®Ҝ

8 comentários:

gisele disse...

Nossaaa!! adorei esse texto acho q foi o melhor q já li aqui ... vc vem se superando e tornando cada vez melhor o seu blog ...é difícil de acreditar q ainda exista alguém com tamanha sensibilidade continue assim ...especial !!!

bjos beijos gisele

Nath disse...

Primus,
lindo, intenso, emocionante!! Acho que este foi o texto mais cheio de sentimento né? Gosto muito das comparações, mais ainda dos ensinamentos.. gosto muito de vc!!!
Beijos saudosos....
Nath

Gaia disse...

"Quando você olhar para mim, se um dia você olhar pro lado (ou para trás...), você possa compreender que fiz o meu melhor"
Quando cheguei na parte final da "carta",eu não estava lendo suas palavras,eu as estava sentindo. Eu realmente olhei para trás e...foi como se eu pudesse ouvir meu pai dizendo isso. Escreve realmente bem,na minha opinião,aguça os sentidos do leitor. Caramba,eu me emocionei,é melhor eu ler seus contos de dia! rs Renato..um homen,uma surpresa rs
Vou ler os outros,outra hora possivelmente. Gaia

Paloma Alves disse...

Obrigada, mais uma vez, pelas sensações que as tuas palavras me causam...

Livia R disse...

Obrigada pelo texto... estou gravida e vou guarda-lo para que um dia meu filho possa lê-lo.

Livia R disse...

Obrigada pelo texto... estou gravida e vou guarda-lo para que um dia meu filho possa lê-lo

Bianca Voloski disse...

Meu pai é assim. Do jeitão de "animalia veterina" dele, mas é. Dizem que dois bicudos não se beijam, mas nós nos beijamos muito. Desde Leo Buscaglia nunca li algo tão profundo. Com carinho. Bianca

ivone coelho disse...

Bianca me indicou o seu blog, achei maravilhoso!!!! bem feito.Por enquanto li somente "Carta ao filho", achei perfeito, me emocionou, é profundo,é sincero, é tudo isso...amei !!!Parabéns, vc. é um gênio!

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?