sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Anel


Olá, boa noite. O Narrador de uma história pode ter o poder que quiser. Pode ser onisciente mas afastado, como um Úranos - aquele inerte Deus-avô que a mitologia católica nos manda ignorar -, pode ser um deus de destruição em massa, hiperativo, vingativo e excludente como um Yavé, pode ser uma senhora acolhedora e matriarcal com seus filhos-personagens e ter umas mudanças de humor dignas de TPM´s homéricas como uma Gaia, ou um grande brincalhão cósmico-universal como um Loki ou um Hermes, que não só jogam dados com o universo como fazem ele cair embaixo do sofá e inventam os resultados.

Na história de hoje nosso demiurgo está feliz. Cansado de ouvir críticas de sua divina esposa sobre o machismo imperando no planeta Terra, resolveu dar um dia inteiro (do acordar ao dormir, não 24hrs, ok?) perfeito para uma mulher e moveu uns pauzinhos. Carla é uma jovem de 31 anos, solteira, com uma filha mimada de 7, e que mora com a mãe, uma senhora levemente surda, em um apartamento na Tijuca. Cumpri minha obrigação da introdução, professoras de literatura do sistema solar? Então creio que podemos começar a história agora.

Nas Mil e Uma Noites, história da literatura fantástica árabe que reúne em coletânea todos os contos e lendas folclóricas de uma vasta área do Oriente Médio, temos a história de Aladim e sua lâmpada maravilhosa, mágica, transcedental, incrível etc etc. Quase todos conhecem a história: uma esfregadinha, um desejo e "puf" (fumacinha que facilita os três marmanjos que arrastam o elefante pintado de rosa até a frente das câmeras)! Basicamente isso. Mas quem não leu a história "oficial" não tem obrigação de saber que havia um outro elemento mágico além da Lâmpada: um anel. Pois é, o gênio do anel - sim, o anel também tinha um gênio! não era um duende, fada, nem um leprechaun... - era mais "fraco" que o da lâmpada, incapaz de fazer malabarismos mágicos de nível hollywoodiano - como deixar todos os abdômens de Esparta engomadinhos ou conseguir que Nick Nolte interprete bem bêbado - mas conseguia realizar seus pequenos absurdos pontuais.

Como demiurgo oficial vou poupar-me o trabalho de explicar como o anel, das mãos de um magnata do petróleo de férias em Mykonos, foi parar no Egito e, de lá, um marido ciumento que não compreendia os presentes que a mulher lhe dava, livrou-se do anel jogando-o no mar, onde um peixe o engoliu e foi engolido por outro que por sua vez.... entendeu?

Pois bem: Carla comia peixe da associação dos pescadores de Copacabana, alí, pertinho do forte naquele domingo. (Lembrem-se do que eu disse: o narrador pode tudo e, além do mais, o demiurgo em questão estava feliz e tal... facilitou as ondas, alegrou uns surfistas no caminho... e... sim! Carla comia uma baleia! Mas fiquem tranquilos, ela dividiu com a filha!)

Uma carinha enrugada de menina descontente com os cabelos secando na frente do rosto solta:
- Manhêêê, tem um osso no meu filé de baleia!
- Cospe filha. Que foi? Machucou o dente? Mordeu o osso?

A menina cuspiu fora um anel de ouro branco com um rubi de cinco pontos cravejado sobre ele. E era lindo, delicado.

Carla imediatamente, com grande e legítima preocupação que o calor do sol sobre o metal naquela mãozinha pequenina pudesse queimar sua querida filha, pegou o anel com a delicadeza de um mastodonte e a velocidade de um bote de uma naja.
- Dá isso aqui! Tira a mão, tira, ti...

Com a graça de um orangotango de cartola ela levantou a filha pelos braços puxando o anel até que a chatinha largasse o conjunto anel-mãe e ficasse com a bundinha à milanesa. A menininha correu dando piti até o mar e agachou nas ondas, somente para ouvir de um pescador que "Aí não pode, minha filha"!

Incrível como o anel coube perfeitamente no dedo de Carla, foi o que ela pensava enquanto olhava fixamente para as pedras cintilantes no seu dedo a caminho do metrô. Na segunda estação entrou um sujeito alto, gordo, suado, com uma camiseta regata e um shortinho ridiculamente pequeno. Parecia uma criança lambona que cresceu enquanto andava e ficou com as roupas de quarenta anos atrás. Com a graça de uma garça obesa ele começou a encoxar nossa protagonista, mesmo que o metrô não estivesse tão cheio a ponto de "justificar" a alegria do banhoso.

Carla, super-animada com a idéia, pensou que se estivesse com um cara legal, não teria esse problema. Pensou que ele poderia ser gostosão também. No momento em que nosso amigo chupeta de baleia estava chegando para mais uma esquiada traseira e Carla girava o corpo para se livrar e gritar qualquer coisa com aquele digno senhor inconveniente, viu um homem grande, moreno, bem saradão - pareceria demais com a imagem que Carla fez do "namorado" há alguns segundos, se ela tivesse se detido a acompanhar o rosto e não o corpo dele, enfim, tinha o corpo dos sonhos de Carla e um rosto... como dizer... indefinido - vindo na direção de ambos.

- Ô seu animal, a mulher está comigo! Sai daí!
O truculento fornecedor da Pirelli afobadinho virou-se com raiva, mas, como todo malandro "coca-cola", perdeu o gás assim que viu nosso amigo agigantado se aproxegando em nossa protagonista. Não falou nada, só caminhou até um banco vazio e já estava quase sentando quando o metrô parou e ele saiu, sem sequer ver qual a estação.

- Obrigada, disse Carla olhando seu salvador do pescoço pra baixo, imaginando os gominhos do abdômen dele.
Ato contínuo entre o pensamento de Carla e nosso amigo sacudindo a camisa dizendo que o sistema de ar-condicionado não estava legal naquele vagão. Ela olhou-o nos olhos, castanhos, e agradeceu.

- Você não tá com a minha mãe!
Carla, mal pôde esconder o desânimo por não estar só naquela situação. Respirou fundo e, enquanto se virava para falar com a delicadíssima filhinha, pensou que gostaria de...

- Filha, quero dar uma volta em Botafogo, quer ir com a avó, Nádia? - Disse a avó (sim, a avó estava lá desde o início. É que ela é uma velhinha discreta) virando-se para a neta.

Carla simplesmente abriu um rasgo labial de orelha a orelha e despediu-se da mãe e da filha carinhosamente e aos berros. Não sem antes pensar na vergonha dupla pela situação do sujeito encoxante e da mãe surda. Queria muito que todos tivessem mais o que fazer além de olhar pra ela. 

Foi quando quase todo mundo ficou paralisado de susto. Alguns acharam que era um defeito das companhias de telefonia celular, a maior parte só ficou atônita com a sinfonia de sonzinhos esdrúxulos simultâneos e celulares caindo no chão e vibrando. Depois de uns quarenta "Alô?" incertos, todos já tinham mais o que fazer e o assunto passou de Carla ao inusitado dos celulares. Só um senhor idoso que, sem celular, queria saber se havia alguma catástrofe "na superfície". Mas Carla pensou que ele bem podia ficar calado.

Chegando em casa - Carla desejou uma viagem rápida, não me culpem - arrastando aquele homen lindo cujo nome Carla sequer havia pensado em perguntar, caíram rindo no sofá e estranhamente o som começou a tocar: Simply Red. As roupas pelo chão e Carla e o moreno desconhecido dignos de uma filmagem do Animal Planet: na parede como largartixa, no sofá como hipopótamos, no chão como um ataque epilético, no chuveiro como vítimas de um taser. 

No silêncio sepulcral que imperou depois daquela tarde deliciosa de domingo, Carla pensou no inusitado de tudo aquilo. Tirando o filé de baleia, todo o resto simplesmente não se encaixava: sua mãe indo fazer compras sem pedir dinheiro, celulares mais que polifônicos, sinfônicos, um moreno lindo que obviamente não tinha dado conta de suas celulites, sexo animal na sala que permaneceu arrumada, um homem com o corpo perfeito cujo rosto ela não sabia discernir nem identificar... foi quando sentiu fome, muita fome, e, naqueles momentos em que o tesão se amaina e o sono ataca implacável... ela bem desejou que ele fosse uma pizza de peperoni. Light.

Receita e Conto: ®Ҝ

3 comentários:

Kamila Garbulha disse...

Parabéns senho autor! ahahah
Muito bom o conto ( e as receitas também parecem ser, diga-se de passagem)! Um senso de humor bem peculiar... Esse merece ser relido!

Bejo!

gisele disse...

Quanta criatividade... gostei ...até rir em alguns trechos, pela forma de descrever as sitiações...bem divertido !!

Beijos !!

Paloma Alves disse...

Você soube "abusar" da sua criatividade! Adorei!
Motivos não me faltam para que continue a ser um dos meus prediletos...

Se você pudesse transformar 12 contos do Café com Conto em curtas-metragens, quais seriam?